Venezuela: Corina Machado entrega o Prêmio Nobel a Trump – chefe da Cia se reúne com Delcy

Image: public domain

Cada dia que passa desde a agressão imperialista de 3 de janeiro e o sequestro do presidente venezuelano e sua esposa traz novas notícias que esclarecem a situação e precisam ser analisadas.

Vamos começar do início. Na quinta-feira, dia 15, a reacionária pró-americana (e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz) María Corina Machado finalmente se reuniu com o presidente Trump. Mas o encontro não ocorreu como ela e seus fervorosos apoiadores esperavam. Ninguém a recebeu na porta da Casa Branca para uma foto. Seu próprio guarda-costas lhe abriu a porta do carro e ela passou pelo pórtico de segurança.

“Uma Visita de Cortesia”

É de boa educação, quando se faz uma visita, levar algum presente, pensou MCM, então decidiu dar ao presidente dos EUA o que ele desejava: a medalha do prêmio Nobel da Paz. Mas como parecia algo pequeno em tamanho, a emoldurou em um enorme quadro (dourado para maior impacto) junto a uma mensagem que registrava o donativo “em nome do povo venezuelano”, em letras bem grandes para que aparecessem na tão esperada foto.

O fato de MCM ter recebido o Prêmio Nobel da Paz, considerando sua constante defesa da invasão e do ataque militar dos EUA ao seu próprio país, já é escandaloso o suficiente – embora deva-se notar que ela está em boa companhia; vários criminosos de guerra também possuem a cobiçada medalha. Mas a ideia de que, ao entregá-la a Trump, ela ganharia seu favor é vergonhosa.

Talvez a própria Machado (ou, com mais probabilidade um de seus assessores) tenha percebido isso e, então, inventaram uma história de um medalhão que Washington teria obsequiado a Bolívar há 200 anos... o que nada tem a ver com o caso em questão. Claramente Machado não é Bolívar nem Trump obviamente tinha interesse em dar a Machado em troca o que tanto ela queria, a presidência da Venezuela.

Em todo caso, parece que não saiu da Casa Branca com as mãos completamente vazias. Uma foto de uma agência de notícias mostra Machado saindo da Casa Branca com uma sacolinha de lembranças, igual a que levam as crianças que assistem a uma festa de aniversário com um pedaço de bolo e alguns doces; neste caso, talvez um boné do MAGA autografado por Trump. Tem gente que se contenta com pouco.

O que fica claro é que Trump está convencido de que tem um bom relacionamento com Delcy Rodríguez em Caracas – ou seja, um relacionamento mediado pela brutal violência de 3 de janeiro, quando ele sequestrou o presidente da Venezuela, pelo bloqueio militar, e que lhe permite chantagear a presidente interina.

Caso não tenha ficado claro, a Casa Branca disse à imprensa que o encontro com Machado não passou de uma "visita de cortesia" e que não alteraria a política de Trump em relação à Venezuela. O próprio Trump reiterou esse ponto: no Iraque, os EUA destruíram o Estado, e depois os militares se juntaram ao Estado Islâmico. A memória desse desastre é o que motiva o imperialismo estadunidense a se apoiar no governo Maduro na Venezuela, enquanto mantém Maduro atrás das grades em Nova York como refém, por precaução.

Mas esse não foi o único encontro que ocorreu na quinta-feira, 15 de janeiro. Praticamente ao mesmo tempo em que Trump se reunia com a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em Washington, o diretor da CIA, John Ratcliffe, se encontrava com Delcy Rodríguez no terminal VIP do Aeroporto Internacional de Maiquetía, na Venezuela.

Um Encontro Extraordinário

O encontro só pode ser considerado extraordinário. Alguns relatos da imprensa afirmam que Diosdado Cabello também estava presente, embora não haja confirmação. O que sabemos com certeza é da presença do General Gustavo González López, o novo chefe da Direção-Geral de Inteligência Militar (DGCIM) e comandante da Guarda de Honra Presidencial, nomeado após o atentado de 3 de janeiro, pois ele aparece em uma das fotos vazadas pela própria CIA.

Digo que a reunião é extraordinária porque, em 3 de janeiro, apenas 12 dias antes, o diretor da CIA, Ratcliffe, estava sentado à mesa de operações com Trump, Rubio, Hegseth e os principais comandantes militares, assistindo ao vivo ao desenvolvimento da brutal agressão militar dos EUA contra a Venezuela, que resultou em 83 mortes (79 militares e 4 civis).

Além disso, a CIA, sob a direção de Ratcliffe, desempenhou um papel decisivo em toda a operação, que foi planejada durante meses, com agentes infiltrados na Venezuela e informantes no círculo íntimo de defesa do presidente Maduro.

Em outras palavras, a mesma pessoa diretamente responsável por grande parte da agressão militar é agora quem Washington está enviando para dar instruções à Venezuela. Mesmo assim, Delcy o cumprimentou com um aperto de mão e um sorriso, e o chefe da DGCIM também estava sorridente com o diretor da CIA.

Em resumo, no mesmo dia e quase ao mesmo tempo, Cuba recebeu com honras os restos mortais dos 32 soldados cubanos mortos no ataque americano. Pode-se dizer que foram assassinados pelas mãos de Ratcliffe. Onze deles, segundo relatos, foram mortos enquanto dormiam, sem qualquer possibilidade de defesa.

E qual foi a mensagem transmitida pelo diretor da CIA? De acordo com o New York Times, citando uma fonte do governo americano:

“O Sr. Ratcliffe se reuniu com a Sra. Rodriguez a pedido do Sr. Trump para transmitir que os Estados Unidos esperam uma melhor relação de trabalho. A fonte, que falou sob condição de anonimato para descrever a delicada reunião, acrescentou que discutiram cooperação em inteligência, estabilidade econômica e a necessidade de garantir que o país deixe de ser um ‘refúgio seguro para os adversários dos Estados Unidos, especialmente traficantes de drogas’”.

“Uma melhor relação de trabalho”! Até agora, se não me engano, a relação entre a CIA e o governo venezuelano tem sido marcada por tentativas de golpe por parte da Agência para derrubar as autoridades em Caracas, recorrendo a tentativas de golpe, tumultos de rua, sabotagem energética, incursões de mercenários e espionagem de alto nível, culminando no 3 de janeiro com o sequestro do presidente.

Diante disso, é evidente que não é difícil que “a relação de trabalho” melhore. A visita de Ratcliffe se assemelha muito à de um dono de uma bodega que visita o gerente para garantir que tudo esteja funcionando bem e para dar instruções precisas.

Nesse caso, as instruções são claras: "a necessidade de garantir que o país deixe de ser um refúgio seguro para os adversários dos Estados Unidos".

Tão Claro quanto o Dia

No meu país, dizemos que é "tão claro quanto o dia". Os interesses dos EUA ditam com quem a Venezuela pode ou não ter relações. Quando a CIA entra pelo aeroporto de Maiquetía, a soberania da Venezuela foge pela janela.

O governo interino de Delcy Rodríguez não ofereceu nenhuma explicação ou declaração a respeito desse encontro extraordinário com uma das figuras-chave da agressão militar de 3 de janeiro e do sequestro do presidente.

De fato, informações sobre a visita do chefe da CIA à Venezuela foram vazadas para a mídia, juntamente com as fotos, pela própria CIA.

No sábado, dia 17, um artigo da Reuters causou grande alvoroço, relatando que os EUA haviam entrado em contato com Diosdado Cabello antes e depois do ataque de 3 de janeiro:

“Autoridades do governo Trump estavam em negociações com o ministro do Interior venezuelano, Diosdado Cabello, meses antes da operação americana para capturar o presidente Nicolás Maduro, e mantiveram contato com ele desde então, segundo diversas pessoas familiarizadas com o assunto”.

Até o momento, Cabello não negou essa informação. Para deixar claro: a reportagem da Reuters não afirma que Cabello sabia de antemão ou estava envolvido no plano dos EUA para sequestrar Maduro. Ela apenas afirma que os canais de comunicação, que obviamente existiam antes de 3 de janeiro, entre o governo Trump e altos funcionários venezuelanos, incluíam especificamente Diosdado Cabello.

É significativo que os próprios EUA tenham vazado ambos os relatórios para a imprensa (referentes à visita do diretor da CIA a Delcy Rodríguez e aos contatos com Diosdado Cabello). O objetivo é claro: enviar um sinal inequívoco ao mundo de que os EUA confiam no governo de Caracas, em todas as suas alas, e que trabalharão por meio dele para alcançar seus objetivos. É uma mensagem para o próprio governo interino e também para a oposição liderada por Machado.

Não vá embora ainda, tem mais, como diziam nos desenhos animados do Super Mouse.

A Lei dos Hidrocarbonetos

Naquela mesma quinta-feira, Delcy Rodríguez discursou na Assembleia Nacional da Venezuela (não sabemos se foi antes ou depois do encontro com o diretor da CIA) e, entre outras coisas, anunciou que apresentaria uma proposta de reforma da Lei de Hidrocarbonetos.

A atual lei de hidrocarbonetos é a promulgada por Chávez em 2001, que restaurou os direitos da Venezuela contra as corporações multinacionais. Ela estipulava que todas as joint ventures com empresas privadas deveriam ter participação majoritária da PDVSA, dobrou os royalties para 30% e pôs fim à "abertura do setor petrolífero". A aprovação dessa lei, como parte de um pacote de 49 leis complementares, foi um dos motivos que levaram a oligarquia e o imperialismo a lançar o golpe contra Chávez em abril de 2002.

A lei foi posteriormente alterada em 2006-07, favorecendo ainda mais os interesses nacionais venezuelanos na exploração de petróleo. A taxa de imposto de renda corporativa para projetos petrolíferos foi aumentada de 34% para 50%, e os royalties totais para 33%. Além disso, 32 "contratos operacionais" da década de 1990 foram rescindidos, forçando as empresas privadas a abandonarem os projetos ou migrar para o modelo de empresas de economia mista, no qual o Estado (através da PDVSA) detinha pelo menos 60% da propriedade.

Chávez também aprovou um decreto para transferir as quatro principais "Parcerias Estratégicas" na Faixa do Orinoco (projetos de petróleo extrapesado multimilionários) para empresas de economia mista controladas pela PDVSA.

Esse conjunto de leis estabeleceu um arcabouço legal e tributário altamente favorável à Venezuela e desfavorável às empresas petrolíferas multinacionais, algo pelo qual o imperialismo jamais perdoou Chávez.

Diversas empresas multinacionais aceitaram o novo regime e migraram para o modelo de economia mista (entre elas a Chevron, a italiana ENI e a espanhola Repsol), mas pelo menos duas multinacionais americanas se recusaram (ConocoPhillips e Exxon) e iniciaram um longo processo judicial internacional contra a Venezuela.

Já em 2020, sob o governo Maduro, houve modificações significativas nesse regime por meio da chamada Lei Antibloqueio, que melhorou a posição das empresas multinacionais nas empresas mistas com a PDVSA.

Na reunião da última sexta-feira entre Trump e os chefes (ou melhor, executivos) das empresas petrolíferas multinacionais, a Exxon estipulou como condição para seu retorno à Venezuela a necessidade de "segurança jurídica", "garantias contra expropriação" e uma reforma substancial da Lei de Hidrocarbonetos.

O que exigem esses abutres do petróleo? Entre outras coisas, "o direito de exportar livremente o petróleo que produzem na Venezuela", já que a PDVSA atualmente vende o petróleo no mercado mundial e deposita a parte das multinacionais em suas contas.

Esse sistema deixou de funcionar na prática devido às sanções criminosas dos EUA. Segundo a Reuters, as petrolíferas "também buscam eliminar os impostos adicionais introduzidos pelo governo após a aprovação da lei, mantendo apenas royalties e imposto de renda".

Em outras palavras, o que querem é destruir o que resta da lei de hidrocarbonetos de Chávez e, com isso, efetivamente, a soberania petrolífera.

Delcy Rodríguez não divulgou o conteúdo de sua proposta de reforma da lei de hidrocarbonetos, além de afirmar que ela se alinha com a licença da Chevron e a lei antibloqueio. Em ambos os casos, isso implica concessões a empresas multinacionais. Veremos até onde isso vai.

Não só isso, a presidente interina também propôs uma modificação na lei trabalhista (também promulgada por Chávez e efetivamente desmantelada pelo governo Maduro por meio de uma série de diretrizes emitidas em agosto de 2008).

Em seu discurso, Delcy Rodríguez falou um monte de bobagens, para dizer o mínimo, mas não mencionou a palavra "socialismo" uma única vez, por precaução (o discurso completo pode ser lido aqui).

Acordo Semi-colonial

Também surgiram relatos não confirmados sobre a venda do petróleo que estava armazenado devido ao embargo dos EUA. A primeira venda, no valor de US$ 500 milhões, já ocorreu, e o dinheiro foi depositado em uma conta bancária no Catar, sob controle do governo americano.

Parte desse dinheiro (supostamente US$ 330 milhões) será enviada à Venezuela, segundo notícias, por meio de quatro bancos privados, que o leiloarão para entidades privadas, priorizando aquelas que desejam importar alimentos e insumos de produção dos EUA.

Os bolívares [moeda venezuelana] obtidos por meio dessas casas de câmbio serão depositados no Banco Central da Venezuela, mas só poderão ser utilizados para projetos específicos determinados pelos Estados Unidos. Isso incluiria o pagamento de salários, a recuperação do setor de saúde (que Delcy Rodríguez já afirmou que será feita em colaboração com o setor privado) e a recuperação do setor elétrico e de outras infraestruturas. A presidente em exercício também afirmou que um sistema eletrônico será criado para garantir a transparência no uso desses recursos.

Dos US$ 170 milhões restantes da venda, ninguém disse uma palavra.

Se analisarmos isso de perto, podemos começar a desvendar o mistério. Os EUA são responsáveis ​​pela venda do petróleo venezuelano e pela gestão dos recursos. Dá-se preferência aos compradores americanos (as refinarias do Golfo), mas o restante é vendido ao maior lance a preços de mercado (não com os descontos que eram obrigados a oferecer para contornar as sanções, nem em troca de dívida chinesa).

Os recursos estão protegidos dos credores da Venezuela, por enquanto, e são enviados (ou pelo menos uma parte deles) para a Venezuela, mas para serem usados ​​sob supervisão dos EUA.

Se, como parece, a estabilidade econômica, social e política da Venezuela, sob a tutela de Washington, é uma prioridade para Trump, é possível que parte desses fundos, que legitimamente pertencem à Venezuela, seja usada para solucionar alguns dos graves problemas que assolam o país. Por exemplo, na saúde, por meio do pagamento a clínicas privadas para a realização de cirurgias. No setor elétrico, por meio da importação de equipamentos e peças de reposição dos EUA.

Na realidade, os EUA não estão desembolsando dinheiro algum, já que os fundos provêm da venda de petróleo venezuelano.

Desmantelando a Revolução Bolivariana

Mas este acordo — porque nada disso funcionaria sem a cooperação do governo de Delcy Rodríguez em Caracas — representa, na verdade, uma perda praticamente total de soberania. Como afirmei em artigo anterior, trata-se de um arranjo semicolonial.

Os EUA controlam o fluxo e a venda de petróleo e o uso dos fundos resultantes para garantir que a Venezuela não esteja mais sob a influência de "adversários dos EUA", como Ratcliffe colocou em sua reunião com Rodríguez.

Qualquer pessoa que descreva isso como uma situação em que a "soberania da Venezuela permanece intacta" porque "a unidade da direção política e militar" é mantida está se iludindo e iludindo os outros.

A unidade da direção política e militar pode ser mantida por enquanto, mas isso é inútil se, na prática, essa direção estiver sujeita aos ditames do imperialismo norte-americano, se agir como um mero instrumento de Washington. Não há diferença prática entre fazê-lo por meio de chantagem ou voluntariamente, o resultado prático é o mesmo.

E não se trata apenas de petróleo. Em 16 de janeiro, o portal de notícias americano Axios publicou uma entrevista exclusiva com o Secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, na qual ele afirmou que "está buscando fechar acordos de petróleo e minerais críticos com a Venezuela nas próximas semanas, antes de uma viagem a Caracas". Quando questionado por jornalistas se isso configurava pilhagem, Wright respondeu que seus "homólogos na Venezuela estão entusiasmados com isso".

“Se você está no governo venezuelano agora, sabe que um terço desse petróleo é corrupto: a máfia o vende. O petróleo restante que vocês controlam, vendem com um enorme desconto. Quase tudo vai para a China. Isso é um impulso para a Venezuela.”

Em outras palavras, até agora o governo venezuelano era forçado a vender seu petróleo com um desconto significativo por causa das sanções unilaterais impostas pelo imperialismo. Agora eles estão suspendendo as sanções para poderem vendê-lo sob supervisão dos EUA, e a Venezuela ainda deve agradecê-los por isso!

Outra notícia divulgada na mesma sexta-feira, 16 de janeiro, foi a retomada dos voos de deportação de venezuelanos dos EUA, que faziam parte dos acordos bilaterais intermediados pelo enviado de Trump, Richard Grenell, para o primeiro semestre de 2025, e que Washington havia suspendido em dezembro. Um assessor da Casa Branca citado pelo Axios descreveu a situação da seguinte forma:

“Entre os voos de deportação que chegam ao país e os fluxos de petróleo e minerais que saem, nos quais Wright está trabalhando, estamos diante de uma dinâmica completamente nova no Hemisfério Ocidental.”

O próprio Wright disse que “o objetivo é direcionar o comportamento da Venezuela para uma direção positiva”. Entende-se que essa direção é positiva para o imperialismo estadunidense, é claro, e quando ele fala em “direcionar”, isso inclui a agressão militar de 3 de janeiro.

Eu estava terminando esta nota quando um camarada em Caracas me enviou um vídeo em que Nicolás Maduro Guerra (filho do presidente sequestrado e membro da Assembleia Nacional) fez um discurso pedindo a restauração das relações com os EUA, a reabertura da embaixada e também… a restauração das relações com Israel!!! Dá vontade de chorar. É preciso ver para crer.

Em 2006, o presidente Hugo Chávez expulsou o embaixador israelense do país em resposta à invasão do Líbano. Em 2009, as relações diplomáticas foram formalmente rompidas devido à agressão israelense contra Gaza.

Em resumo, poderíamos em breve ver a CIA, a Embaixada dos EUA, o FMI e a Embaixada de Israel de volta a Caracas, selando definitivamente o desmantelamento da revolução bolivariana de Chávez.

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