Rifte do Mar Vermelho: aliados dos EUA se dividem em campos armados Share TweetEm janeiro deste ano, dois dias depois de Trump bombardear a Venezuela e sequestrar seu presidente, Nicolás Maduro, a Arábia Saudita bombardeou o sul do Iêmen e sequestrou a direção do Conselho de Transição do Sul (STC). Isso desencadeou uma série de eventos, e agora uma falha geológica se abriu ao longo do Mar Vermelho, estendendo-se para oeste até o Marrocos e para leste até o subcontinente indiano. Dois campos hostis estão frente a frente – ambos compostos por aliados dos EUA!Os sequestros por parte dos sauditas no Iêmen não foram chamados de "sequestros" propriamente ditos. Em vez disso, os sauditas os denominaram "negociações de paz". O presidente do Conselho de Transição do Sul (CTS), Aidarus al-Zoubaidi, havia sido convidado para essas negociações, mas, no fim, optou por não se entregar fisicamente aos assassinos de Jamal Khashoggi. Uma decisão sábia, sem dúvida! Em vez disso, ele cancelou seu voo para Riad e fugiu para os Emirados Árabes Unidos.Os outros 50 diretores do CTS, no entanto, foram para a Arábia Saudita. Lá, foram recebidos por uma escolta armada. Posteriormente, tudo o que sabemos é que seus telefones foram desligados e eles ficaram incomunicáveis por vários dias, antes de reaparecerem e anunciarem que iriam dissolver o CTS. Não havia praticamente nenhuma escolha da parte deles se quisessem sair vivos das "negociações"!Sequestro de aeronaves, roubo, pirataria, rapto e negociações sob a mira de armas – essas são as ferramentas da diplomacia internacional em 2026, e os EUA estão ditando o tom!Comparado aos eventos na Venezuela, o que aconteceu no Iêmen mal foi noticiado nos jornais... no entanto, desencadeou uma série de eventos mais amplos que se intensificaram e continuam a se intensificar.Linhas de batalha traçadas ao longo do Mar VermelhoO CTS, mencionado anteriormente, funcionava como um instrumento dos Emirados Árabes Unidos (EAU), no Iêmen. No Iêmen, eles eram formalmente aliados da Arábia Saudita na luta contra os houthis, apoiados pelo Irã, embora tenha havido confrontos entre eles ao longo dos anos. No final de 2025, no entanto, o CTS expandiu o território que controlava até a fronteira com a Arábia Saudita, utilizando armamento dos EAU.Os sauditas não estavam dispostos a tolerar isso. Bombardearam diretamente equipamentos dos EAU, forçando-os a render-se e a retirar-se, e depois convidaram os indefesos diretores do CTS para as já mencionadas "negociações".Desde então, as relações entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos entraram em colapso.Os governantes da Arábia Saudita e dos EAU eram amigos íntimos há anos. Conhecidos na mídia como MBS (Mohammed bin Salman) e MBZ (Mohammed bin Zayed), eram como Tweedledee e Tweedledum [personagens icônicos de Alice Através do Espelho, conhecidos como os Gêmeos – NdT] do Golfo Pérsico. Agora, estão em pé de guerra.Os sauditas se recusam a reconhecer vistos dos EAU. Ambos os países enviaram emissários a Washington para buscar apoio. Durante a visita, os emiradenses aproveitaram a oportunidade para fazer lobby junto a grupos judaico-americanos a denunciarem os sauditas como antissemitas.Mas, desde então, um processo mais profundo começou a se desenrolar.Toda a região é atravessada por uma série de conflitos bárbaros por procuração, guerras civis e disputas transfronteiriças – feridas abertas que os imperialistas infligiram à região e as deixaram infeccionar durante anos.Agora, esses conflitos estão se alinhando e se unindo. Dois campos hostis estão se formando em uma vasta área do norte e leste da África, passando pelo Oriente Médio e chegando até a Ásia.De um lado: Israel, os Emirados Árabes Unidos, a Etiópia, a Índia e seus aliados. Do outro: a Arábia Saudita, a Turquia, o Paquistão e seus aliados.Somália versus SomalilândiaO Mar Vermelho está no centro da polarização atual. Artéria fundamental que liga a Europa ao Oceano Índico e, portanto, à Ásia, possui enorme importância estratégica para o comércio mundial, especialmente para o mercado global de energia.De frente para o Iêmen, do outro lado do Golfo de Áden, na extremidade sul do Mar Vermelho, fica a região separatista da Somalilândia, na Somália.Em dezembro, Israel tomou a iniciativa de se tornar o primeiro país a reconhecer a região separatista e manifestou interesse em construir uma base militar no local. Em consonância com a atitude de Israel, os EAU deixaram de reconhecer passaportes somalis e anunciaram que, a partir de então, reconheceriam apenas passaportes da Somalilândia.Os Emirados Árabes Unidos, em particular, têm investimentos importantes na região. A empresa emiradense DP World detém uma participação de 51% no porto de Berbera, na Somalilândia. Os restantes 49% são controlados pela Etiópia, um país sem litoral que perdeu o acesso ao Mar Vermelho quando a Eritreia se separou na década de 1990. Os seus investimentos nesse porto baseiam-se num acordo prévio segundo o qual também reconheceria a região separatista.Logo após o reconhecimento da Somalilândia por Israel, a Turquia e a Arábia Saudita denunciaram a medida.O Catar, aliado da Turquia, assinou um pacto militar com a Somália em janeiro, e a Arábia Saudita assinou um pacto semelhante em fevereiro. Os egípcios, por sua vez, convidaram o presidente somali para acompanhar uma importante inspeção das tropas que pretendem enviar para a Somália, em uma ação que um veículo de comunicação classificou como uma “mensagem de dissuasão” dirigida a Israel e aos EAU.Mais recentemente, poucos dias atrás, a Somália – um dos países mais pobres do mundo – anunciou que compraria 24 caças JF-17 do Paquistão pelo impressionante valor de US$ 1 bilhão.Pedimos ao leitor que permaneça conosco. Este é apenas o começo da fissura que se abriu.Linhas de batalha em toda a África OrientalSimultaneamente, há desenvolvimentos ocorrendo na vizinha Etiópia.Em primeiro lugar, houve uma intensa atividade diplomática. Há uma semana, o presidente turco, Erdogan, esteve em Adis Abeba para pressionar a Etiópia a não reconhecer a Somalilândia. Na próxima semana, o presidente israelense, Herzog, irá para lá precisamente para exercer pressão na direção oposta. A Etiópia está sendo arrastada para isso.Como já mencionamos, o acesso ao Mar Vermelho é um ponto crucial em uma longa disputa entre a Etiópia e a Eritreia. Agora, a Etiópia acusa a Eritreia de invadir seu território nas últimas semanas em aliança com combatentes do Tigré (região do norte da Etiópia). Os eritreus negam a acusação. A situação está se agravando.Neste conflito também, as linhas de batalha estão sendo traçadas, e as mesmas partes já mencionadas estão em ambos os lados. No último mês, Israel e os EAU começaram a fortalecer os laços com a Etiópia. O Egito tem seu próprio conflito com a Etiópia sobre o abastecimento de água. A Etiópia está atualmente construindo a maior barragem da África na nascente do Nilo Azul. Agora, o Egito está tomando medidas para mediar os laços militares entre a Arábia Saudita e a Eritreia.Depois, há o Sudão, outra nação banhada pelo Mar Vermelho e rica em ouro e outros recursos.Desde a derrota da revolução de 2019, o Sudão mergulhou na mais terrível guerra civil entre facções rivais do Estado. Agora, as já mencionadas gangues regionais de predadores estão a alimentar ainda mais as chamas deste conflito horrível – um conflito no qual a população não tem qualquer participação.Os EAU têm sido, há muito tempo, apoiadores declarados dos mercenários implacáveis das Forças de Apoio Rápido (RSF, em sua sigla em inglês). Mas, neste mês, a Reuters revelou evidências de satélite que comprovam, pela primeira vez, que a Etiópia está se juntando decisivamente a essa guerra ao lado das RSF, construindo campos de treinamento em seu próprio território.Por outro lado, a Arábia Saudita vem apoiando o exército oficial sudanês há algum tempo. Agora, o Paquistão, que assinou um pacto de defesa mútua com os sauditas em setembro, entrou na disputa, tendo firmado um acordo de US$ 1,5 bilhão com o exército sudanês para o fornecimento de jatos e drones.Mais uma vez, outro conflito, nas mesmas linhas: de um lado, Israel, Emirados Árabes Unidos, Etiópia; do outro, Turquia, Arábia Saudita, Paquistão.LíbiaAs linhas dos conflitos por procuração existentes, que formam uma sequência ininterrupta na região, não se alinham exatamente ao longo desse eixo bidirecional. Vemos isso na Líbia. Enquanto os turcos apoiam as forças estabelecidas em Trípoli, os sauditas, egípcios e emiradenses apoiam as forças do leste, baseadas em Tobruk.Contudo, essa situação está se tornando insustentável. A tendência geral de formação de dois campos hostis está se intensificando e causando realinhamentos. Um realinhamento pode estar atrasado na Líbia, visto que o governo do leste tenta servir a dois senhores simultaneamente.De fato, em janeiro, Saddam Haftar, filho do ditador do leste, foi – nas palavras de uma fonte militar egípcia – “literalmente convocado ao Egito, não convidado para uma visita de cortesia”.Enquanto esteve lá, foi-lhe dito, sem rodeios, que deveria transmitir uma mensagem ao seu pai, o ditador. Os sauditas e os egípcios sabem que o governo sediado em Tobruk ajudou os Emirados Árabes Unidos a transportar combustível e armas para o sul, através da Líbia, até aos combatentes das Forças de Apoio Rápido (RSF) no Sudão.“A mensagem foi clara”, explicou a fonte militar egípcia: “o apoio contínuo às RSF obrigaria o Egito a reconsiderar toda a sua relação com o leste da Líbia”.Todos estão sendo forçados a escolher um lado.Linhas de fratura muito mais amplasEmbora os eventos tenham se desenvolvido rapidamente na região do Mar Vermelho, essas fissuras estão se alinhando com outras que se estendem muito além dessa área.Já analisamos em outro momento como a Turquia e Israel se enfrentam atualmente como potências hostis em toda a Síria. Tanto a Turquia quanto a Arábia Saudita apoiam o novo regime de Jolani em Damasco. Contra eles, Israel e os EAU tentam manipular grupos minoritários oprimidos para minar o governo central.Mais distante, na extremidade ocidental do Mediterrâneo, as tensões entre Marrocos e Argélia estão aumentando. Os dois países estão em desacordo há anos sobre o status do Saara Ocidental. Israel e os Emirados Árabes Unidos apoiam a reivindicação marroquina sobre a região. Os sauditas, por sua vez, apoiam a posição da Argélia, defendendo a independência do Saara Ocidental.Na sequência do rompimento das relações entre a Arábia Saudita e os EAU, a Argélia cancelou seus acordos aéreos com os EAU.Em toda a região, o destino de pequenas nações e povos oprimidos está sendo usado como moeda de troca em um jogo sangrento e reacionário. O Iêmen é o segundo país mais pobre do mundo; a Eritreia, o nono; a Somália, o décimo; e a Etiópia, o décimo oitavo.Por que os sauditas e a Turquia – duas gangues regionais reacionárias e predatórias que competem entre si para explorar e roubar os povos da região – estão de repente se unindo em um mesmo eixo? Não há honra entre ladrões, e certamente não há lealdade mútua. No entanto, isso é um fato em todos os lugares.Em resumo, a questão é a seguinte: todas as potências regionais percebem o enfraquecimento do imperialismo estadunidense. Os sauditas e os turcos viram como os EUA apoiaram Israel incondicionalmente em suas campanhas em Gaza, Líbano, Síria, Iêmen e outros lugares. Israel tem ambições claras de dominar toda a região.E, neste momento, Trump construiu uma armada que ameaça destruir qualquer equilíbrio que existia na região. Ele está tocando os tambores da guerra, ameaçando derrubar o Irã. Isso levou as facções governantes da Arábia Saudita, Turquia e Paquistão ao pânico.O colapso do Irã, a desestabilização da ordem regional, a potencial propagação da instabilidade do Irã para seus vizinhos, Iraque, Arábia Saudita, Turquia, Paquistão – quem ganharia com isso? Israel!Mas existe outra força que está impulsionando essa polarização – uma maré mais poderosa nos assuntos mundiais.Com o enfraquecimento dos EUA, a Arábia Saudita e a Turquia diversificaram suas apostas, aproximando-se da China e da Rússia. O Paquistão também adotou essa estratégia. O Mar Vermelho é uma artéria crucial para a Nova Rota da Seda chinesa. O risco de a China controlar o tráfego no Mar Vermelho, por sua vez, é motivo de preocupação para a Índia, que anseia por estabelecer sua própria rota comercial, o que lhe conferiria independência da Nova Rota da Seda chinesa. A Índia também está se aproximando de Israel e dos Emirados Árabes Unidos, enquanto seu rival regional, o Paquistão, se aproxima da Turquia e da Arábia Saudita.Assim, embora ambos os lados dessa disputa sejam formalmente aliados dos EUA, o que ofusca essa polarização crescente é a questão do conflito global que define nossa era: a luta entre os EUA e a China.“Um lugar de parceria, amizade e investimento”Repetimos: o imperialismo, e sobretudo o imperialismo estadunidense, é responsável por tudo isso. Deixou uma série de feridas abertas e purulentas por toda esta região atormentada, resultantes de suas inúmeras intervenções. Agora, esses conflitos sangrentos na Síria, Iêmen, Líbia, Etiópia, Eritreia, Somália e Saara Ocidental ameaçam se fundir.Por quê? Porque os EUA não são mais a potência hegemônica dominante no mundo que já foram e não conseguem controlar a situação. Não podem dominar o mundo inteiro de uma só vez – um fato que foi explicitamente reconhecido no documento de Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump, publicado em novembro.O documento observa, com toda razão, que o Oriente Médio não tem mais a importância estratégica que já teve para os EUA. Os EUA são autossuficientes em energia atualmente e não precisam importar petróleo. As "guerras intermináveis", a um custo altíssimo, mantiveram os EUA presos à região e os impediram de concentrar seus esforços em outras áreas.Há divisões na administração Trump. Uma ala – que representa a posição tradicional da classe dominante dos EUA – deseja ignorar a realidade e continuar a dominar o Oriente Médio.Mas outra corrente argumenta, com certa lógica, que os EUA estão sobrecarregados e devem, em vez disso, concentrar-se em outras áreas, em regiões de extrema importância estratégica. Nomeadamente: o hemisfério ocidental e a região do Pacífico. Contudo, se o Oriente Médio mergulhar no caos, isso seria catastrófico para a economia mundial, para os preços da energia e, em última análise, para os próprios interesses do imperialismo estadunidense. Essa é a visão expressa no documento de Estratégia de Segurança Nacional de Trump.E esse documento chega à avaliação mais entusiasta e otimista da situação no Oriente Médio! Ele descreve a região nos seguintes termos:“[Ela] já não é o incômodo constante e a potencial fonte de catástrofe iminente que já foi. Em vez disso, está emergindo como um lugar de parceria, amizade e investimento — uma tendência que deve ser bem-vinda e incentivada.”É tentador pensar que essa passagem se deve a um senso de humor doentio por parte do autor! No entanto, eu diria que não se trata de uma piada de mau gosto, nem de piada alguma. Em vez disso, o que temos aqui é um caso de pensamento extremamente fantasioso, até mesmo mágico.Há muito tempo atrás, antes das leis de proteção aos animais, era possível ir ao circo e ver ursos, leões e tigres sentados, em pé, saltando por aros e cooperando em todos os tipos de acrobacias como se fossem os melhores amigos.É claro que não havia nada de natural nas "amizades" que o circo fomentava entre predadores natos. O espetáculo só era possível porque esses predadores mantinham um olhar atento sobre o mestre de cerimônias, que os recompensava com carne vermelha por acrobacias bem executadas e os chicoteava caso se comportassem mal.Agora imaginemos que o mestre de cerimônias se convenceu de que realmente fomentou uma verdadeira amizade entre os ursos, os leões e os tigres que marchavam obedientemente sob seu chicote, e que o circo não era mais uma "fonte potencial de catástrofe iminente". Então, ele tem a ideia genial de deixar a administração conjunta do circo para seus predadores treinados. Em seguida, ele tenta se retirar do circo para se concentrar em negócios mais importantes.O que aconteceria? No mínimo, um ou dois ataques de fúria.Em outras palavras, o que acabamos de descrever é a estratégia de uma das alas do governo Trump.O documento observa que o Irã está enfraquecido. Enquanto isso, todas as outras potências dominantes no Oriente Médio são aliadas dos EUA: Israel, Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Formalmente falando, tudo isso é verdade. Se essas potências pudessem se unir sob laços de amizade, juntas poderiam consolidar a região e impor uma nova ordem pacífica.Isso significa, principalmente, normalizar as relações com Israel – e essa tem sido precisamente a essência da política de Trump para o Oriente Médio desde seu primeiro mandato como presidente, quando ele promulgou os Acordos de Abraão.Esses acordos normalizaram as relações entre os EAU, Marrocos e Sudão em 2020. Trump claramente esperava que os sauditas e, eventualmente, os turcos aderissem e que sua visão se concretizasse: leões, tigres e ursos patrulhando o circo de forma civilizada: “um lugar de parceria, amizade e investimento”.Assim, os EUA poderiam se retirar em segurança sem correr o risco de uma explosão.A mosca na sopaDeixando de lado a questão de se ursos, leões e tigres podem se tornar amigos, havia apenas dois pequenos problemas cruciais nos planos do governo Trump.A primeira questão é a seguinte: o governo Trump superestimou fatalmente o grau de enfraquecimento do Irã. Se Trump pensou que uma simples operação de limpeza seria suficiente, que uma armada suficientemente grande no Golfo Pérsico levaria à queda do regime iraniano, então ele calculou mal. O governo agora enfrenta uma escolha: ação militar que pode terminar em catástrofe e potencial derrota, ou retirada, recuo e uma perda de prestígio sem precedentes para o imperialismo americano.O segundo obstáculo a esse plano era o seguinte: os Acordos de Abraão significavam que os estados árabes estariam traindo abertamente a causa palestina. As classes dominantes corruptas dos estados árabes reacionários estavam, sem dúvida, todas preparadas para dar esse passo, caso os acontecimentos não tivessem intervido.Mas os acontecimentos intervieram. Impedir a implementação dos Acordos de Abraão foi uma parte importante dos cálculos do Hamas ao lançar a Operação Inundação de Al-Aqsa em 7 de outubro de 2023. Posteriormente, os regimes árabes reacionários observaram com alarme as ações imprudentes de Israel, que inflamaram a raiva revolucionária contra o sionismo, o imperialismo e os regimes árabes cúmplices.Isso tornou uma maior reaproximação política impossível e dividiu os países árabes em dois blocos. De um lado, países como os EAU, que seguiram em frente com a normalização das relações. Hoje, um comércio bilateral massivo se desenvolveu entre Israel e os Emirados Árabes Unidos. Do outro lado, a Turquia, a Arábia Saudita e seus aliados permanecem fora dos Acordos de Abraão.Não queremos exagerar o papel dos Acordos de Abraão, que não são a causa das hostilidades atuais. Há processos mais profundos impulsionando isso: o declínio do imperialismo estadunidense, a ascensão da China e a corrida de predadores regionais menores para preencher o vácuo.No entanto, é uma ironia histórica que precisamente a aliança que deveria consolidar a região e garantir a paz em nome do imperialismo estadunidense tenha se tornado a linha divisória entre todos os aliados do imperialismo estadunidense, dividindo-os em dois campos hostis e preparando-se para a possibilidade de uma violenta redistribuição regional.É um comentário irônico sobre o utopismo de todas as alas do imperialismo estadunidense. Aquela ala que quer dominar o mundo inteiro simultaneamente descobre que não consegue nem manter seus aliados atuais sob controle, à medida que eles se fragmentam violentamente.Quanto à ideia de se retirar do Oriente Médio e se reagrupar, os EUA estão presos na teia de contradições que eles mesmos teceram ao longo de décadas. No momento em que tentarem se retirar, ou mesmo demonstrarem fraqueza, os predadores regionais começarão a afiar suas garras para uma disputa feroz no vácuo deixado. Os EUA inevitavelmente se verão arrastados de volta para o conflito, com tudo o que isso implica em termos de esgotamento do crédito político e dos recursos econômicos da classe dominante e seus partidos nos EUA.O que vemos aqui são os contornos da barbárie em uma escala terrível. O imperialismo ocidental e, sobretudo, o imperialismo estadunidense são os responsáveis! Os trabalhadores e a juventude do mundo devem pôr fim ao imperialismo e enterrar o capitalismo mundial antes que ele nos enterre!