Prefácio à edição brasileira de A História da Filosofia

Sem teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário.” (Lenin, O Que Fazer?)

UMA VIAGEM DE DESCOBERTAS

A notícia da publicação de minha A História da Filosofia no Brasil foi um momento de grande satisfação para mim. Isso demonstra que a seção brasileira da Internacional Comunista Revolucionária está sendo construída sobre bases sólidas.

É uma indicação clara de que os camaradas brasileiros estão ansiosos por estudar a teoria marxista e, em particular, a filosofia, que é a base do método do marxismo – o materialismo dialético.

Ao apresentar este livro, convido você a se juntar a mim em uma viagem de descoberta. É uma jornada que comecei há muito tempo e que ainda não chegou ao fim. É uma entusiasmante viagem que nos levará a muitas terras e nos colocará frente a frente com muitas ideias surpreendentes e originais.

Estaremos na presença de alguns dos pensadores mais brilhantes e originais que o mundo já viu. E como qualquer viagem, nem sempre será fácil, mas posso lhe prometer uma coisa: se você persistir até o fim, sairá enriquecido dessa jornada. Ao final, sua compreensão do mundo e da sociedade será muito mais profunda do que antes.

E você estará muito melhor armado com as armas ideológicas que são o pré-requisito indispensável para realizar a transformação revolucionária da sociedade.

Essa grande jornada nada mais é do que a história da filosofia.

UMA VISÃO CIENTÍFICA DO MUNDO

O marxismo é, antes de tudo, uma visão científica do mundo. É uma arma poderosa que nos fornece as ferramentas necessárias para analisar e compreender o mundo em que vivemos. Somente se nos basearmos nessa compreensão poderemos mudar o mundo. Reagir meramente às injustiças do capitalismo sem fornecer uma explicação e análise de suas causas profundas não nos levará a lugar nenhum.

A ideia de que podemos sobreviver sem algum grau de aprendizado está em total contradição com a experiência cotidiana. De fato, a teoria é uma característica necessária de muitos aspectos da existência humana, não apenas da política.

Cada campo específico da atividade humana requer um grau de conhecimento teórico. Isso se aplica a todas as esferas concebíveis da existência humana – da carpintaria à neurocirurgia e à ciência espacial. Por que, então, as coisas deveriam ser diferentes quando se trata da luta de classes?

Teriam, os revolucionários, o direito de abordar a séria questão da revolução a partir de uma abordagem amadora, que não pressuponha a necessidade de um estudo sério e de uma preparação teórica?

Esta é uma pergunta que, para qualquer pessoa séria, se responde por si só.

Apesar disso, há alguns – mesmo entre aqueles que se consideram “marxistas” – que negam ou minimizam consistentemente o papel da teoria.

Eles negam a importância da luta ideológica, retratando-a como a esfera de ação dos intelectuais pequeno-burgueses. Tais questões, eles insistem, nada têm a ver com a luta de classes, com o que chamam de “política prática” e, portanto, não interessam aos trabalhadores.

UM PRECONCEITO PEQUENO BURGUÊS

É verdade que os trabalhadores não se interessam pela teoria, que a esfera das ideias é monopólio dos intelectuais pequeno-burgueses?

Essa ideia não é apenas falsa. Também é uma calúnia cruel contra a classe trabalhadora. Toda a minha experiência provou, sem sombra de dúvida, que os trabalhadores têm sede de teoria e ideias.

Eles não se contentam com agitação vazia. Não precisam que lhes digam constantemente coisas que já sabem – que são explorados pelos patrões, que vivem em casas ruins, que a sociedade é dividida entre ricos e pobres, e assim por diante.

Tendo vindo de uma família da classe trabalhadora no sul do País de Gales, fico muito irritado quando ouço esse tipo de afirmação. Ela revela precisamente a mentalidade de um esnobe pequeno-burguês que não tem absolutamente nenhum conhecimento dos trabalhadores, de como eles pensam e do que aspiram.

Tal esnobismo repugnante é totalmente alheio ao comunismo e não tem lugar nas fileiras de uma organização revolucionária genuinamente proletária.

Trabalhadores sérios exigem uma explicação para todas essas coisas – e muitas outras mais. Os trabalhadores querem saber.

E quando um trabalhador começa a se interessar seriamente pela teoria marxista, ele se torna um teórico muito mais sério do que qualquer diletante de classe média da universidade.

“A IGNORÂNCIA NUNCA AJUDOU NINGUÉM”

O argumento de que os trabalhadores não se interessam pela teoria não é novo. Mesmo antes de escreverem O Manifesto Comunista, Marx e Engels (que, recordemos, iniciaram sua vida revolucionária como estudantes da filosofia hegeliana) travaram uma luta contra aqueles dirigentes “proletários” que veneravam o atraso e os métodos primitivos de luta e resistiam obstinadamente à introdução da teoria científica no movimento.

O escritor russo Annenkov, que por acaso estava em Bruxelas na primavera de 1846, deixou-nos um relato muito interessante de uma reunião em que ocorreu uma discussão furiosa entre Marx e Weitling, o comunista utópico alemão. Em um dado momento, Weitling, que era um operário, se queixou de que os “intelectuais” (Marx e Engels) escreviam sobre assuntos obscuros e desinteressantes aos trabalhadores.

Ele acusou Marx de escrever “análises de poltrona de doutrinas distantes do mundo do povo sofredor e aflito”. Nesse ponto, Marx, que normalmente era muito paciente, ficou indignado. Annenkov escreve:

“Ao ouvir as últimas palavras, Marx finalmente perdeu o controle e bateu com o punho na mesa com tanta força que o abajur vibrou e balançou. Levantou-se de um salto dizendo: ‘A ignorância nunca ajudou ninguém!’.[1]

Weitling se opunha à teoria e ao trabalho paciente de propaganda. Assim como Bakunin, ele sustentava que os pobres estavam sempre prontos para a revolta.

Este defensor da “ação revolucionária” em oposição à teoria acreditava que, enquanto houvesse líderes resolutos, uma revolução poderia ser engendrada a qualquer momento. Encontramos ecos dessas ideias pré-marxistas primitivas ainda hoje nas fileiras dos marxistas.

Mas Marx, Engels, Lênin e Trotsky passaram muito tempo defendendo e desenvolvendo a teoria marxista, que eles corretamente entenderam ser uma arma vital na luta revolucionária pelo socialismo.

EM DEFESA DO MARXISMO!

Há alguns anos, a tendência representada por Ted Grant rompeu com o grupo sectário dirigido por Peter Taaffe. Após a cisão na Grã-Bretanha, encontramo-nos em uma situação muito difícil.

A cisão coincidiu com o colapso do stalinismo na URSS e com uma feroz ofensiva ideológica da burguesia contra o marxismo e o comunismo. A tarefa que tínhamos pela frente era extremamente desafiadora. Não tínhamos escritório, pouquíssimos recursos, e nosso aparato consistia em uma única máquina de escrever. Faltava-nos tudo – tudo, exceto o mais importante – as ideias corretas.

Perguntamo-nos qual era a nossa principal tarefa naquele momento. Discuti isso com Ted Grant e decidimos que nossa principal tarefa era iniciar uma séria luta ideológica em defesa do marxismo.

O início disso se deu com a publicação do livro Razão e Revolução: Filosofia Marxista e Ciência Moderna, de autoria minha junto com Ted Grant.

Esse livro — que teve um grande impacto internacional ao longo dos anos — foi, acredito eu, a primeira (e possivelmente a única) tentativa de fornecer uma justificativa teórica para o materialismo dialético e, em particular, para as ideias da grande obra-prima filosófica de Engels, Dialética da Natureza.

Nossos antigos camaradas do Militant, como era de se esperar, não ficaram impressionados com isso. Na verdade, acharam bastante divertido. Por que alguém deveria perder tempo escrevendo sobre tais assuntos nos dias de hoje? O dirigente daquela camarilha de vulgarizadores zombou: “Alan e Ted desistiram da política revolucionária para escrever sobre filosofia!”

Este pequeno aforismo realmente nos diz tudo o que precisamos saber sobre a falência daquelas senhoras e senhores. E, no final, foi o poder das ideias que garantiu nosso sucesso.

A IMPORTÂNCIA DA DIALÉTICA

Por que essas pessoas consideraram desnecessário escrever sobre materialismo dialético? A explicação não é difícil de encontrar.

Pessoas tão “espertas” fingem possuir conhecimento da dialética repetindo essa palavra em cada frase. Ah, sim! Todos nós conhecemos as leis básicas da dialética! Elas nos são tão familiares que podemos repeti-las a qualquer momento e aplicá-las mecanicamente a qualquer situação.

Há pouco tempo, tive o infortúnio de ter que ler um documento muito extenso que menciona a palavra dialética em todas as páginas, senão em todas as frases. No entanto, não havia um único átomo de dialética nele, da primeira à última página. Esse tipo de “marxismo” realmente não vale muita coisa.

Com muita frequência, pessoas que se consideram marxistas se contentam em repetir apenas algumas proposições elementares, sem se preocupar em estudá-las em toda a sua profundidade.

Repetem a palavra dialética como um encantamento sem sentido, da mesma forma que um velho padre católico repete a Ave-Maria, sem sequer pensar no significado das palavras que murmura.

Sofrem de uma espécie de preguiça mental, meramente deslizando sobre a superfície, repetindo irrefletidamente alguns jargões e citações fora de contexto que decoraram, cujo conteúdo genuíno permanece um livro fechado para eles.

Com o tempo, eles se familiarizaram com algumas das ideias básicas. Mas Hegel explicou que o que é familiar não é compreendido precisamente por ser familiar (“Aber was bekannt ist, ist darum noch nicht erkannt”). Na verdade, esse método é puro formalismo, um esquematismo muito estreito e grosseiro, que não tem absolutamente nada em comum com o método científico do marxismo.

A LUTA DE LÊNIN CONTRA O DESVIO “ECONOMICISTA”

A luta de Lênin pela teoria começou em um estágio muito inicial de sua atividade revolucionária, quando ele criticou duramente as teorias da chamada tendência “economicista”.

Eram pessoas que se consideravam “práticos”, em oposição aos “meros teóricos”. Eles exigiam que os revolucionários se concentrassem exclusivamente nas questões práticas e cotidianas que afetavam diretamente os trabalhadores – principalmente a luta econômica.

Respondendo a essas falsas ideias, Lênin apontou que havia três tipos de luta: a econômica, a política e a ideológica. Durante toda a sua vida, ele deu grande ênfase à luta ideológica, que começou com sua luta contra a tendência “obreirista” representada pelos economicistas russos. Já em 1902, em O Que Fazer?, Lênin apontava que:

“Sem teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário. Nunca é demais insistir nessa ideia numa época em que a pregação da moda do oportunismo anda de mãos dadas com a paixão pelas formas mais estreitas de atividade prática.”

Ele acrescentou que “o papel de combatente de vanguarda só pode ser desempenhado por um partido guiado pela teoria mais avançada”.

Essas ideias são tão verdadeiras hoje quanto o eram quando Lênin escreveu estas linhas, e igualmente necessárias. Trabalhadores e jovens sérios estão buscando as ideias do socialismo revolucionário, ou seja, do marxismo.

É por essa razão que, além da luta cotidiana pelo socialismo, dedicamos grande atenção à produção do trabalho teórico. Rejeitamos todas as tentativas de abandonar a teoria marxista, de diluir as ideias e de rebaixar o nível do movimento ao menor denominador comum do “ativismo” irracional.

Isso representa um afastamento fundamental do marxismo. O abandono ou a negligência da teoria, a busca por um atalho para as massas, leva inevitavelmente ao pântano do oportunismo ou ao beco sem saída do ultra-esquerdismo.

Lênin levou a luta ideológica tão a sério que estava disposto a romper com toda a direção da fração bolchevique por causa de divergências filosóficas.

A cisão ocorreu em 1909, quando Lênin optou por romper com Bogdanov e Lunacharsky em vez de fazer a menor concessão ao revisionismo filosófico, ao formalismo sectário e à política ultra-esquerdista deles. Isso ocorreu após quase dois anos de luta interna.

No entanto, quando a cisão ocorreu, Lênin já havia conseguido conquistar a maioria do partido para a posição do materialismo dialético.

Essa vitória no plano ideológico foi precisamente a condição prévia para a vitória final do proletariado russo na Revolução de Outubro.

PENSAMENTO DOGMÁTICO

O marxismo é o oposto do pensamento dogmático. O exemplo mais claro desse tipo de pensamento encontra-se na religião. É impossível argumentar com um cristão convicto, que responderá com as palavras de Tertuliano: “Credo quia absurdum est” (Creio porque é absurdo).

É claro que não há resposta para isso, visto que se baseia na rejeição do pensamento racional em geral. De fato, toda religião se baseia na fé, não na lógica, e é impossível argumentar contra a fé cega, precisamente porque ela é cega.

Infelizmente, às vezes encontramos uma mentalidade muito semelhante em muitos grupos sectários que, por algum motivo, se disfarçam sob o nome de marxismo e até mesmo de trotskysmo.

Os sectários, que guardam uma estranha semelhança com os fanáticos religiosos, mergulham fundo nos textos de Marx, Lênin e Trotsky até que, tendo tropeçado em algum trecho que se encaixa em suas ideias preconcebidas, o arrancam de seu contexto e o apresentam como uma verdade absoluta, imutável e inquestionável.

Uma vez distorcido em um esquema rígido e fossilizado, o marxismo se transforma em seu oposto – de um método profundo e científico em um dogma sem vida que pode ser aplicado mecanicamente a qualquer situação ou contexto.

Para citar um exemplo que pode ser familiar: o capitalismo não pode desenvolver as forças produtivas sob nenhuma circunstância.

Portanto, a China não pode ter desenvolvido as forças produtivas.

Portanto, a China é uma semicolônia atrasada, subdesenvolvida e dominada, controlada inteiramente pelos EUA.

Portanto, o suposto conflito entre a China e o imperialismo norte-americano é mera invenção ou fruto da imaginação.

A lógica disso parece impecável e, de fato, segue fielmente as regras da lógica formal.

Uma vez aceita a proposição inicial, o resto se segue, assim como a noite segue o dia. Por exemplo:

Todos os cientistas têm duas cabeças. Einstein era um cientista.

Portanto, Einstein tinha duas cabeças.

Isso é ridículo? Obviamente o é, porque não corresponde aos fatos conhecidos. Mas, como exemplo de lógica formal, é um exemplo perfeitamente razoável de silogismo aristotélico e, como tal, deve ser aceito como correto.

O problema, claro, é que a proposição inicial é falsa e, portanto, tudo cai por terra.

Isso também se aplica à proposição de que o capitalismo não é mais capaz, sob nenhuma circunstância, de desenvolver as forças produtivas, visto que o fez em muitas ocasiões, notadamente no período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial.

A teoria de que, na era do imperialismo, nenhum desenvolvimento das forças produtivas é possível passa a ser considerada uma proposição absoluta e válida para todos os tempos – uma chave mágica que abre todas as portas.

Essa ideia baseia-se numa interpretação errônea do que Trotsky escreveu em 1938, em O Programa de Transição, onde apontava que as forças produtivas haviam parado de crescer.

Isso estava correto naquela época. Mas Trotsky nunca afirmou que essa fosse uma proposição com aplicação universal, independente do tempo e do espaço.

Na verdade, ele alertou contra isso antecipadamente:

“Mas uma previsão em política não tem o caráter de um plano perfeito; é uma hipótese de trabalho… Não se deve, contudo, intoxicar-se com esquemas acabados, mas sim referir-se continuamente ao curso do processo histórico e ajustar-se às suas indicações.”[2]

Ao transformar o que era um prognóstico condicional em uma afirmação absoluta, válida para todos os tempos e aplicável em todas as circunstâncias, os sectários transformaram a análise científica de Trotsky em um completo absurdo.

O capitalismo não é eterno nem fixo. Na verdade, é menos fixo do que qualquer outro sistema socioeconômico na história. Como qualquer outro organismo vivo, ele muda, evolui e, portanto, passa por uma série de estágios mais ou menos claramente discerníveis.

Nos debates do Terceiro Congresso da Internacional Comunista, em 1921, Trotsky interveio contra os ultra-esquerdistas, que defendiam a ideia de que o capitalismo jamais experimentaria uma recuperação econômica.

E Lênin insistiu que não existia tal coisa de uma crise final do capitalismo. A menos que seja derrubado pelo proletariado, o capitalismo sempre encontrará uma saída, mesmo da mais profunda crise econômica.

E isso ficou claramente demonstrado pela recuperação do sistema após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando as forças produtivas experimentaram uma ascensão que superou até mesmo a da Revolução Industrial.

Este não é o lugar para desenvolver uma discussão que já fizemos exaustivamente em outro momento. Basta dizer que todo o método usado para “provar” que a China não desenvolveu as forças produtivas é falso do início ao fim.

Discutir com essas pessoas é completamente inútil, pois não importa quantos fatos você possa apresentar para provar que elas estão erradas, elas sempre afirmarão que 2 + 2 = 5, e não 4.

E já que o dogma delas está correto, se for contradito pela realidade, então a realidade, por definição, deve estar errada.

Não é necessário dizer que qualquer similaridade entre tal método e o método do materialismo dialético marxista é puramente acidental.

CONSTRUINDO SOBRE A AREIA

Para aqueles que imaginam poder construir um movimento revolucionário sério sem teoria, só podemos responder com um encolher de ombros resignado. Podemos também lembrá-los das palavras da Bíblia:

“...como um homem insensato, que construiu a sua casa sobre a areia. E veio a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu, e grande foi a sua queda.”

Os verdadeiros comunistas devem construir uma casa sobre alicerces sólidos:

“E veio a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela não caiu, porque estava edificada sobre a rocha.”

A rocha da qual a Bíblia fala é a rocha da fé religiosa. Naturalmente, não temos necessidade alguma disso. A rocha sobre a qual construímos nossa organização é a rocha de granito da teoria marxista.

Hoje, temos orgulho de dizer que a Internacional Comunista Revolucionária é a única tendência no mundo que defende consistentemente a teoria marxista.

Sem teoria, não teríamos razão para existir como uma tendência política separada. É o que nos distingue, por um lado, dos reformistas de esquerda e de direita e, por outro, dos sectários desorientados.

Livros como Razão e Revolução tornaram-se um pilar fundamental para a defesa do materialismo dialético, especificamente no campo da ciência moderna, onde segue de perto os passos das grandes obras teóricas de Engels: Anti-Dühring e Dialética da Natureza.

E A História da Filosofia representa um avanço semelhante na defesa da teoria marxista.

POR QUE ESTUDAR A HISTÓRIA DA FILOSOFIA?

Para se chegar a uma compreensão completa do materialismo dialético, será necessário um estudo cuidadoso e aprofundado.

Mas há uma dificuldade envolvida no estudo da filosofia em geral, e da filosofia marxista em particular – uma dificuldade que está no cerne do livro que apresento a vocês agora.

Quando Marx e Engels escreveram sobre o materialismo dialético, eles podiam pressupor um conhecimento básico da história da filosofia por parte, pelo menos, do público leitor culto da época.

Hoje em dia, infelizmente, é impossível fazer tal suposição. Sinto muito pelos atuais estudantes de filosofia.

Os jovens estudantes de olhos brilhantes que ingressam nas faculdades de filosofia com grandes esperanças de iluminação se desencantam rapidamente ou são arrastados para a fossa venenosa da linguagem pós-moderna, de onde não há escapatória possível. Em ambos os casos, emergirão sem nunca aprender nada de valioso dos grandes pensadores do passado.

Não contentes em encher a mente dos jovens com lixo pós-moderno, eles têm a audácia de introduzir o mesmo lixo no estudo da história da filosofia.

Esses pigmeus pós-modernos têm a audácia de tratar os grandes pensadores do passado com desprezo porque eles não se encaixam em suas bobagens.

Isso não é acidental.

A DECADÊNCIA SENIL DA FILOSOFIA BURGUESA MODERNA

Evidentemente, os Sumos Sacerdotes das ideias pós-modernas não gostam de ser lembrados do fato de que houve um tempo em que os filósofos realmente tinham algo profundo e importante a dizer sobre o mundo real.

Houve muitos exemplos assim. No passado, os filósofos eram rebeldes e heróis.

Sócrates foi forçado a beber uma taça de cicuta venenosa por desafiar as ideias vigentes da sociedade.

Giordano Bruno foi condenado à morte na fogueira pela Inquisição Romana por suas ideias heréticas, das quais se recusou a se retratar.

Os filósofos materialistas do Iluminismo prepararam o caminho para a Revolução Francesa. Mas hoje em dia a situação é bem diferente. A atitude da maioria das pessoas em relação à filosofia é de desprezo, ou melhor, de completa indiferença. Isso é bem merecido. A filosofia burguesa moderna apresenta um espetáculo verdadeiramente lamentável. Para citar Shakespeare:

“A última cena de todas, que encerra esta estranha e movimentada história, é uma segunda infância e um mero esquecimento; Sem dentes, sem olhos, sem paladar, sem tudo.”

Aqui temos um epitáfio adequado para colocar no túmulo da filosofia burguesa moderna.

A IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

No entanto, é lamentável que, ao se afastarem do deserto filosófico atual, negligenciem os grandes pensadores do passado que, em contraste com os diletantes modernos, foram gigantes do pensamento humano.

Na história da filosofia, houve muitas escolas de pensamento, muitas delas brilhantemente originais, que serviram para iluminar este ou aquele aspecto da verdade. Mas nenhum desses sistemas filosóficos, tomados isoladamente, foi capaz de revelar toda a verdade.

O brilhantismo de Hegel foi conceber toda a história da filosofia como um único processo de pensamento, o que ele chama de Autoconsciência.

Hegel tratou a história da filosofia não como uma sequência sem sentido de ideias desconexas de pensadores individuais, mas como um todo orgânico, no qual cada estágio nega o estágio anterior, mas ao mesmo tempo preserva tudo o que é necessário e válido em seu conteúdo real, elevando-o a um nível superior.

Isso foi finalmente alcançado por Marx e Engels que, partindo da análise materialista da dialética de Hegel, realizaram uma grande revolução, que marcou o surgimento da filosofia desde a atmosfera escura e obsoleta do escritório para o sol, o ar e a luz brilhantes do dia. Foi essa grande revolução filosófica que forneceu a base real para a futura vitória da revolução proletária. E ela não caiu do céu, mas foi o produto final de muitas gerações dos pensadores mais avançados e brilhantes da história do mundo.

O marxismo tem o dever de fornecer uma alternativa abrangente às ideias antigas e desacreditadas. Mas não temos o direito de virar as costas aos grandes pensadores do passado, aqueles heróis que abriram caminho para todos os grandes avanços da ciência moderna. Temos o dever de resgatar tudo o que foi valioso na história da filosofia, descartando tudo o que é falso, obsoleto e inútil.

Pode-se aprender muito com os gregos, com Spinoza, com os materialistas franceses do Iluminismo e, acima de tudo, com Hegel.

Esses foram pioneiros heroicos, que prepararam o caminho para as brilhantes conquistas da filosofia marxista e podem ser considerados, com razão, uma parte importante de nossa herança revolucionária.

A ÁLGEBRA DA REVOLUÇÃO

O revolucionário russo Alexander Herzen certa vez descreveu a dialética de Hegel como a álgebra da revolução. Disse-o bem.

Para resolver os problemas mais urgentes da sociedade, todo o edifício do capitalismo deve ser derrubado. Mas, para acelerar a demolição deste sistema podre, é necessário limpar o terreno, demolindo a ideologia putrefata que o sustenta. Isso demonstra a importância vital de se compreender as ideias que foram moldadas ao longo de um longo período da história.

Até hoje, a filosofia permanece um campo de batalha no qual as duas escolas antagônicas e mutuamente incompatíveis do materialismo e do idealismo continuam a se enfrentar.

Assim como prestamos atenção cuidadosa às lições proporcionadas pelas grandes lutas de classes do passado, temos o dever de estudar a grande batalha de ideias que constitui o significado essencial da história da filosofia.

Assim como a Revolução de Outubro, a Comuna de Paris e a tomada da Bastilha apontaram o caminho para a futura revolução socialista que transformará o mundo inteiro, as grandes batalhas filosóficas do passado lançaram as bases para o materialismo dialético – a filosofia do futuro.

É por essa razão que escrevi este trabalho. Ele é dedicado à nova geração de jovens revolucionários que anseiam por estudar e aprender as ideias do comunismo genuíno.

Uma parte importante da educação de nossos jovens quadros é o estudo cuidadoso da história da filosofia. Se meu livro puder servir para estimulá-lo e encorajá-lo a fazê-lo, terá alcançado seu propósito.

Desejo-lhe uma jornada proveitosa e agradável. Boa viagem!

Alan Woods Londres,

15 de outubro de 2025


[1] Pavel Annenkov, Reminiscências de Marx e Engels, p. 272, ênfase minha, AW.

[2] Trotsky, Escritos, 1930, p.50.

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