Os EUA, a esquerda e a luta pela liberdade da Groenlândia Share TweetA ameaça de Donald Trump de anexar a Groenlândia se intensificou em comparação ao ano passado, quando ele acabara de tomar posse como presidente. Ele ameaçou com tarifas, uso da força militar e todo tipo de outras medidas. Ainda não se sabe como tudo isso vai terminar, mas colocou o governo dinamarquês sob enorme pressão e, ao mesmo tempo, chocou muita gente no país.[Publicado originalmente em dinamarquês em marxist.dk]No sábado, 17 de janeiro, as ruas da Groenlândia e da Dinamarca se encheram de manifestantes que queriam demonstrar “solidariedade e apoio à Groenlândia”. Há uma indignação generalizada na Dinamarca e na Groenlândia em relação ao comportamento de Trump. Entre os trabalhadores e jovens dinamarqueses, existe um desejo genuíno de apoiar e demonstrar solidariedade aos groenlandeses. Mas como podemos, de fato, combater as ameaças de Trump e lutar pela verdadeira liberdade dos groenlandeses?A resposta que pode parecer mais lógica à primeira vista é enviar tropas para a Groenlândia. É também o que a Aliança Vermelho e Verde da Dinamarca e seu líder, Pelle Dragsted, têm exigido:“Não se pode simplesmente pousar um helicóptero em Nuuk e hastear a bandeira americana. Precisamos deixar claro que haverá um conflito armado se os americanos seguirem esse caminho.”Segundo Dragsted, trata-se de “um possível ataque ao nosso próprio território. Trata-se de defender o direito dos groenlandeses de determinarem o seu próprio destino”. Mas será que um confronto militar com os Estados Unidos é realmente a forma de garantir que os groenlandeses possam determinar o seu próprio destino?Pode parecer atraente para qualquer pessoa que queira fazer algo para ajudar os habitantes da Groenlândia diante da avassaladora ameaça americana que se apresenta aqui e agora. Mas existem vários problemas com essa suposta solução da Aliança Vermelho e Verde e de Dragsted.Uma solução militar?Em primeiro lugar, é óbvio que a Dinamarca não pode vencer um conflito militar com os EUA. Pelle Dragsted reconhece isso e, como ele mesmo afirma: "provavelmente será decidido rapidamente". Quando questionado se isso significa sacrificar soldados dinamarqueses em uma batalha que se sabe estar perdida de antemão, Dragsted responde: "Quando se tem uma força de defesa, ela está lá para ser usada, e quando alguém se alista nas Forças Armadas, é claro que também existe o risco reconhecido de ir para a guerra".Em outras palavras, Dragsted defende o envio de soldados dinamarqueses para uma morte completamente inútil. Seria puramente simbólico, para aumentar o "custo" de uma invasão americana. Essa realidade não muda pelo fato de vários países da UE terem enviado tropas para a Groenlândia nas últimas semanas, já que o número e a quantidade foram insignificantes.Mas mesmo que muitas tropas europeias fossem enviadas para a Groenlândia a ponto de poderem de fato desafiar os EUA, o que isso significaria? Seria o mesmo que arriscar o início de uma guerra entre os EUA e a Europa, ou seja, começar e lutar a Terceira Guerra Mundial em solo groenlandês. Um cenário tão horrível não pode ser considerado uma "solução" nem para o povo groenlandês nem para ninguém.A Dinamarca como garantidora da independência?Em segundo lugar, a questão é: as tropas dinamarquesas estão sendo enviadas para a Groenlândia para defender o quê? Dragsted afirma que elas estão indo para a Groenlândia para defender “o direito dos groenlandeses de determinar seu próprio destino”. Mas isso se baseia na premissa de que as autoridades dinamarquesas estão realmente interessadas em defender o direito dos groenlandeses de “determinar seu próprio destino”.Se analisarmos os últimos 300 anos de história, devemos constatar que as autoridades dinamarquesas nunca demonstraram esse comportamento. Pelo contrário, a Dinamarca agiu como uma potência colonial brutal na Groenlândia e ainda hoje trata o país como uma colônia dinamarquesa.Só agora, diante da ameaça dos EUA, é que os políticos dinamarqueses começam a pedir desculpas por alguns dos crimes cometidos pela Dinamarca, a falar sobre a independência da Groenlândia e a demonstrar um interesse genuíno pelo país. Se realmente acreditassem que estão lutando pelo direito da Groenlândia à independência, poderiam permitir que o país conduzisse sua própria política externa e se expressasse por si mesmo, com quem quer que desejasse.Atualmente, essa não é a situação, como a crise atual demonstrou claramente. Mas a questão é mais profunda do que o cenário atual, pois está previsto na Constituição que a política externa da Groenlândia é conduzida pela Dinamarca. É por isso que os políticos dinamarqueses deixaram bem claro que os políticos groenlandeses não podem, em hipótese alguma, dialogar com os americanos sem a presença de um representante dinamarquês.A classe dominante dinamarquesa e seus políticos não estão "defendendo" a Groenlândia contra Trump porque pretendam conceder à Groenlândia uma verdadeira independência. Eles estão se opondo a Trump para defender seus próprios interesses. A posse da Groenlândia deu à Dinamarca um lugar de destaque no cenário político mundial que é completamente inédito, considerando o quão pequeno e frágil o país realmente é.Até recentemente, isso conferia à Dinamarca uma ligação especial com os EUA. Os governantes dinamarqueses não têm qualquer desejo de renunciar a essa posição. O caminho para a independência da Groenlândia, portanto, não passa pelo apoio à classe dominante dinamarquesa.O que aconteceria se, hipoteticamente, a Dinamarca vencesse um conflito militar contra os Estados Unidos? Significaria que o domínio dinamarquês sobre a Groenlândia continuaria e, na verdade, seria fortalecido, agora com um número muito maior de forças militares dinamarquesas estacionadas na Groenlândia. Isso reforçaria o argumento já utilizado pelas autoridades dinamarquesas contra as reivindicações de independência da Groenlândia: “Vocês não conseguem se virar sozinhos. Serão imediatamente dominados pelos Estados Unidos – se não pela China ou pela Rússia. Vocês precisam da Dinamarca”. Uma hipotética vitória militar dinamarquesa contra os EUA não significaria independência e liberdade para os groenlandeses, mas sim a continuação e o fortalecimento do colonialismo dinamarquês, que é precisamente o que está intensificando o desejo de independência sentido por muitos groenlandeses.Está a Dinamarca na vanguarda contra o imperialismo americano?Isso nos leva ao terceiro problema com a “solução” da Aliança Vermelho-Verde: a ilusão de que a classe dominante dinamarquesa está interessada em combater o imperialismo americano. O imperialismo americano não é um fenômeno criado por Trump. A diferença em relação ao passado é que o imperialismo americano está agora em relativo declínio; os EUA não podem mais ser a “polícia do mundo” e, portanto, estão se concentrando no Hemisfério Ocidental para se fortalecerem contra seus rivais em ascenção, especialmente a China. Além disso, a diferença é que Trump, ao contrário da maioria dos políticos, à sua maneira peculiar, diz as coisas com mais honestidade e como elas realmente são. Portanto, ele revela os verdadeiros interesses por trás do imperialismo americano.Só agora, num momento em que Trump ameaça os interesses dinamarqueses, é que as autoridades da Dinamarca começam a criticar os americanos. Durante muitas décadas, sucessivos governos dinamarqueses seguiram o imperialismo americano em todas as circunstâncias, incluindo no Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia e Ucrânia.Só agora eles criticam os ataques à soberania nacional e defendem a ordem mundial baseada em regras. Isso não os preocupou quando seguiram os EUA no Afeganistão e no Iraque, duas nações soberanas, nem os levou a retirar o apoio ao genocídio de Netanyahu em Gaza ou a condenar o sequestro de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, o chefe de Estado de uma nação soberana.Não nos opomos às ameaças de Trump de anexar a Groenlândia porque não se enquadra com a chamada ordem mundial baseada em regras, ou porque se trata de um ataque a um aliado, mas sim porque é uma expressão de agressão imperialista que serve apenas à classe dominante nos Estados Unidos.Mesmo agora, quando os EUA ameaçam diretamente tomar território dinamarquês, a classe dominante dinamarquesa demonstra que, fundamentalmente, precisa dos EUA. Continuam comprando armamentos americanos, permitem que os americanos estabeleçam bases em solo dinamarquês e permanecem dependentes da tecnologia americana avançada. Os capitalistas e políticos dinamarqueses não estão lutando contra Trump ou o imperialismo americano. Estão lutando apenas contra o plano dele de tomar a Groenlândia e, assim, enfraquecer seus próprios interesses imperialistas.União nacionalO governo dinamarquês, historicamente impopular antes desta crise, está tentando usar as ameaças de Trump para unir os dinamarqueses em torno da nação e, principalmente, pressionar os groenlandeses a apoiarem a Dinamarca. A Aliança Vermelho e Verde os está ajudando nessa tarefa. Pelle Dragsted deixou de lado todas as críticas à Dinamarca e, como todos os outros políticos, enfatiza a Dinamarca como a salvação da Groenlândia: “uma excelente e importante conferência de imprensa do presidente do Naalakkersuisut [Primeiro-Ministro da Groenlândia] e do Primeiro-Ministro. Estamos unidos no Reino. A Groenlândia não está à venda.”Como resposta ao imperialismo americano, a Aliança Vermelho e Verde acaba defendendo o imperialismo dinamarquês. A Aliança Vermelho e Verde alega lutar pela independência da Groenlândia, mas Dragsted menciona repetidamente a necessidade de defender o Reino, que é especificamente a expressão organizada da supremacia colonial do imperialismo dinamarquês sobre a Groenlândia.A Dinamarca é uma pequena nação envolvida no conflito entre as principais potências imperialistas do mundo, que têm interesse na Groenlândia. Mas isso não significa que a classe dominante dinamarquesa seja progressista, ou que não tenha seus próprios interesses imperialistas a defender, principalmente na Groenlândia.É óbvio para todos, inclusive para a Aliança Vermelho e Verde, que a Dinamarca sozinha não pode enfrentar os Estados Unidos em um conflito. A solução para Pelle Dragsted é envolver a Europa como uma contraparte progressista dos Estados Unidos. Em um debate na DR (emissora pública dinamarquesa), ele disse: “Trata-se de um ataque à Europa, porque a Europa é o último bastião mundial de uma ordem jurídica internacional, o que significa que não é o mais forte na selva que decide”.Em uma publicação no Facebook, um dia após o famoso encontro em Washington entre Vivian Motzfeldt, Lars Løkke, J.D. Vance e Marco Rubio, Pelle Dragsted descreveu o quanto se sentiu comovido: “Diversos países nórdicos e europeus anunciaram ontem que disponibilizariam tropas na Groenlândia para um exercício no Ártico sob comando dinamarquês”. A publicação continua:“Não estamos apenas unidos em palavras. Estamos lado a lado na Groenlândia.“Para garantir o direito dos groenlandeses de determinar seu próprio futuro.“Para defender o direito internacional e a integridade territorial.”“É realmente animador. Uma luz na escuridão. E é também uma surpresa positiva para mim que os países europeus e nórdicos estejam adotando uma postura tão firme, depois de termos visto por muito tempo uma linha mais cautelosa e conciliatória em relação ao valentão da Casa Branca.“É realmente incrível presenciar essa solidariedade por parte de nossos amigos e parceiros nos países nórdicos e na Europa.“A Groenlândia e a Dinamarca não são os países mais populosos da Europa. No entanto, os países nórdicos e a Europa estão prontos para transformar suas palavras em ações para defender as fronteiras e a autodeterminação do povo groenlandês.“Fiquei sinceramente comovido com isto esta manhã.“Isto é solidariedade. Dá esperança não só à Groenlândia e à Dinamarca, mas também à unidade na Europa e a um mundo e a um futuro onde não prevaleça apenas a lei da selva e o direito do mais forte.“Juntos somos fortes.”Precisamos deixar claro: o imperialismo europeu não é nem um pouco mais progressista que o imperialismo americano. É simplesmente mais fraco, e tem permanecido assim há muitos anos.Existem inúmeros exemplos de como as potências europeias ao longo da história saquearam países, massacraram populações e dominaram governos na Ásia, América do Sul e África. Mas isso não é algo que pertença apenas ao passado.As guerras em que muitas potências europeias ajudaram os EUA a travar já foram mencionadas acima. Outro exemplo recente e flagrante de imperialismo europeu ocorreu em 2024, quando a França reprimiu um movimento de massa entre o povo Kanak na Nova Caledônia.Os povos indígenas lutam há muito tempo pela independência e por mais direitos políticos na Nova Caledônia, que ainda é uma colônia francesa. Em maio de 2024, um movimento de massa espontâneo eclodiu no país, sendo brutalmente reprimido pelas forças militares e policiais francesas, enviadas da França. O resultado foi 14 mortes e milhares de feridos.Defender o imperialismo dinamarquês e europeu não é defender um mundo “onde não prevaleça apenas a lei da selva e o direito do mais forte”. É defender a vitória dos interesses capitalistas dinamarqueses e europeus sobre o imperialismo americano. É uma tentativa de vincular a classe trabalhadora da Groenlândia, da Dinamarca e da Europa às nossas próprias classes dominantes nacionais. Isso ajuda nossos governantes a mobilizar a nação em torno de si e enfraquece a luta por uma Groenlândia livre, porque enfraquece a luta contra o imperialismo sob todas as suas formas.Qual é o caminho para a independência da Groenlândia?A proposta da Aliança Vermelho e Verde de enviar tropas para a Groenlândia parece atraente porque, à primeira vista, aparenta ser a única solução realista. O problema é que não é nem uma solução, nem é realista.Não existe um caminho "fácil" ou rápido para a liberdade dos groenlandeses. Na atual conjuntura de crescentes tensões entre as superpotências imperialistas – o relativo declínio dos Estados Unidos e uma Europa totalmente debilitada, e, por outro lado, a ascensão da Rússia e, sobretudo, da China – as pequenas nações encontram-se entre a cruz e a espada. Esta não é uma invenção de Donald Trump, mas sim a realidade do mundo capitalista em que vivemos. Para que a Groenlândia se torne verdadeiramente livre, o imperialismo precisa ser erradicado; ou seja, o sistema capitalista precisa ser desmantelado.Os trabalhadores dinamarqueses não têm interesse em oprimir os groenlandeses, como demonstra a grande solidariedade atual com a Groenlândia. Como comunistas, é nossa tarefa canalizar essa solidariedade para uma luta contra o imperialismo como um todo, e fazemos isso começando pelos nossos próprios governantes, em vez de fortalecê-los, como faz a Aliança Vermelho e Verde.Estamos lutando para que a classe trabalhadora tome o poder na Dinamarca e expulse os capitalistas e suas políticas imperialistas nefastas. Nesse contexto, uniremos forças com os groenlandeses em um apelo genuíno aos trabalhadores americanos por solidariedade.As pesquisas de opinião nos EUA já mostram uma oposição massiva à anexação da Groenlândia pelo imperialismo americano. Mas, para deter o imperialismo americano, é necessária uma alternativa. No momento, Trump e seu governo estão destacando a injustiça de a Dinamarca possuir a Groenlândia enquanto os EUA arcam com os custos de segurança, assim como ele já apontou a injustiça de os EUA arcarem com grande parte da segurança da Europa. Ele identificou isso como a razão pela qual a Europa conseguiu oferecer um sistema de bem-estar social melhor do que os EUA. Isso não significa que Trump tenha a intenção de proporcionar um bem-estar social melhor para os americanos, mas pode encontrar eco em alguns trabalhadores americanos.No entanto, um apelo aos trabalhadores americanos para que apoiem a liberdade da Groenlândia terá um efeito muito maior se partir de uma posição que mostre a alternativa a um mundo dominado pelo imperialismo, em vez de uma posição que defenda o imperialismo dinamarquês e europeu como o oposto do imperialismo americano. Ou seja, a partir de uma posição de classe.Os trabalhadores da Groenlândia, da Dinamarca e dos Estados Unidos têm exatamente os mesmos interesses: um mundo onde o lucro e a competição não governem, mas onde os recursos mundiais sejam usados para melhorar a vida da grande maioria. Onde os interesses econômicos não dominem e não levem à guerra e à opressão. Ou seja, eles têm interesse em lutar por um mundo socialista. Podemos mudar o mundo se nos organizarmos na luta por uma revolução socialista. É o único caminho para que todos vivam em verdadeira liberdade.