Guia de Leitura: A História da Filosofia: uma Perspectiva Marxista

O livro de Alan Woods, A História da Filosofia: Uma Perspectiva Marxista leva os leitores a uma jornada de 2.000 anos, começando com os grandes pensadores da Grécia Antiga, passando pelos filósofos burgueses radicais do Iluminismo, pela dialética de Hegel e culminando com o socialismo científico de Marx e Engels. Esperamos que este guia incentive camaradas e apoiadores a formar grupos de leitura com trabalhadores e jovens radicalizados ao redor do mundo!

O guia de leitura resume os pontos principais, capítulo por capítulo, e oferece uma série de perguntas e sugestões de estudo para dinamizar a discussão. Embora o guia seja especialmente adequado para grupos de leitura, ele também ajudará leitores individuais a aprimorarem sua compreensão do texto. Compre A História da Filosofia hoje com um de nossos militantes; leia e discuta com amigos, colegas e camaradas; e arme-se com uma compreensão profunda da grande linhagem filosófica do marxismo.

Sumário:

1. O surgimento da filosofia

2. Os Primeiros Dialéticos

3. Aristóteles e o Fim da Filosofia Clássica Grega

4. A Ascensão do Cristianismo

5. Filosofia Islâmica

6. Filosofia na Idade Média

7. O Renascimento

8. Descartes, Spinoza e Leibniz

9. O Beco Sem Saída do Kantismo

10. A Revolução de Hegel na Filosofia

11. De Hegel a Marx


Pode-se questionar: por que se dar ao trabalho de estudar questões complexas de ciência e filosofia? Para o nosso dia a dia isso é evidentemente desnecessário e, à primeira vista, estudar um livro sobre a história da filosofia pode parecer um tanto acadêmico. Contudo, se desejamos obter uma compreensão racional do mundo em que vivemos e dos processos fundamentais que nele atuam, então, sem dúvida, precisamos estudar filosofia – essencialmente uma forma de observar o mundo.

As pessoas que fingem não ter filosofia alguma irão, inevitavelmente, refletir as ideias e os preconceitos da sociedade e do meio em que vivem. A vida não é uma série de acidentes sem sentido ou uma rotina irrefletida, e é nosso dever ocuparmo-nos em elevar nosso pensamento para além dos problemas imediatos da existência cotidiana.

Neste livro, Alan Woods descreve o desenvolvimento da filosofia desde os antigos gregos até Marx e Engels. Foram eles que reuniram o melhor do pensamento anterior para produzir a perspectiva filosófica marxista, que observa o mundo material real não como uma realidade estática e imóvel, mas como algo que está em constante mudança e movimento, de acordo com leis que podem ser desvendadas.

É esse método que permite aos marxistas analisar como as coisas eram, como se tornaram e como provavelmente serão no futuro, num longo processo que começou com os primeiros humanos primitivos em suas lutas pela sobrevivência, passando pelo surgimento das sociedades de classe, tudo como parte de um processo em direção ao conhecimento cada vez maior do mundo em que vivemos.

1. O surgimento da filosofia

No início, a necessidade de compreender o mundo estava intimamente ligada à necessidade de sobreviver. Com o desenvolvimento da técnica, veio o desenvolvimento da mente e a necessidade de explicar os fenômenos da natureza que regiam a vida dos primeiros hominídeos. Ao longo de milhões de anos, por meio de tentativas e erros, nossos ancestrais começaram a estabelecer certas relações entre as coisas. Eles começaram a fazer abstrações, isto é, a generalizar a partir da experiência e da prática.

No entanto, as abstrações dos primeiros humanos não tinham um caráter científico e eram mais semelhantes a explorações provisórias, “como as impressões de uma criança, palpites e hipóteses, às vezes incorretas, mas sempre ousadas e imaginativas”. Mesmo assim, essas foram tentativas importantes de encontrar uma causa racional para certos fenômenos naturais. A noção de que a alma existe separada e distinta do corpo vem desse período inicial, em que religião (magia), arte e ciência não eram distinguíveis. As explicações religiosas preenchiam a lacuna deixada pela falta de conhecimento das leis da natureza.

O dualismo que separa a alma do corpo, mente da matéria, pensar do agir, recebeu um poderoso impulso do desenvolvimento da divisão do trabalho em um determinado estágio da evolução social. A separação entre trabalho intelectual e manual é um fenômeno que coincide com a divisão da sociedade em classes. Pela primeira vez, uma minoria da sociedade foi libertada da necessidade de trabalhar para obter o essencial à existência.

As primeiras tentativas do homem de explicar o mundo e o nosso lugar nele estavam misturadas com mitologia, como mostram os vários mitos da Criação. A verdadeira história do pensamento científico começa quando homens e mulheres aprendem a dispensar a mitologia e tentam obter uma compreensão racional da natureza, sem a intervenção dos deuses.

A filosofia grega primordial representa o verdadeiro ponto de partida da filosofia, que, em suas origens, era completamente materialista. Filósofos jônicos como Tales, Anaximandro e Anaxímenes deram as costas à mitologia e buscaram encontrar um princípio geral para o funcionamento da natureza a partir da observação da própria natureza.

Em contraste, os pitagóricos abordaram o mundo do ponto de vista dos números e das relações de quantidade. Apesar de um forte elemento místico, eles fizeram descobertas importantes que estimularam muito o desenvolvimento da matemática. Esse desenvolvimento do aspecto quantitativo da investigação da natureza foi importante e, sem ele, a ciência teria permanecido no nível de meras generalidades. No entanto, isso, por sua vez, tinha certos limites, pois é impossível reduzir o funcionamento complexo, dinâmico e contraditório da natureza a fórmulas quantitativas estáticas e ordenadas.

 Questões e sugestões de estudo:

  • Você consegue pensar em algum exemplo atual de “neutralidade” ou “objetividade” que, na verdade, apenas reproduz o status quo?
  • O que torna os humanos qualitativamente diferentes dos outros animais?
  • O que você sabe sobre animismo e qual a sua relevância para a história da filosofia?
  • O que Feuerbach quis dizer quando afirmou que “se os pássaros tivessem uma religião, seu Deus teria asas”?
  • Em que sentido os antigos gregos foram pioneiros?
  • Como a visão de mundo de Anaxímenes representou um avanço em comparação com os outros materialistas jônicos?
  • É correto afirmar que, em períodos de declínio social, o idealismo filosófico tende a dominar? E o materialismo, em períodos de progresso social?
  • Explique como a “abordagem numérica” da escola pitagórica foi tanto um importante avanço científico quanto uma fonte de futuros equívocos sobre a matemática.

2. Os Primeiros Dialéticos

Com Heráclito, as afirmações contraditórias dos filósofos jônicos recebem, pela primeira vez, uma expressão dialética. De fato, Heráclito foi o primeiro a apresentar uma exposição clara da ideia da unidade dos opostos. Todas as coisas contêm uma contradição, que impulsiona seu desenvolvimento. Sem contradição, não pode haver movimento nem vida. “Tudo flui” era a base dessa filosofia dialética – uma visão dinâmica do universo, o oposto exato da concepção idealista estática dos pitagóricos.

A filosofia de Heráclito foi recebida com incredulidade e hostilidade ainda em sua época. Ela desafiou as premissas não apenas de toda religião e tradição, mas também da mentalidade do "senso comum", que não enxerga nada além da ponta do próprio nariz. A escola eleática representou essa reação e afirmou o oposto direto: que nada muda, que o movimento é uma ilusão, como elaborado por Zenão em sua série de paradoxos concebidos para provar a impossibilidade do movimento.

Os primeiros atomistas, como Anaxágoras, foram importantes porque, seguindo a melhor tradição jônica, acreditavam na experimentação e na observação. Outros, como Leucipo e Demócrito, expuseram a ideia de que a matéria consiste em uma infinidade de partículas minúsculas, invisíveis aos sentidos. Isso representou uma generalização importantíssima e uma transição para a teoria atômica, uma notável antecipação da ciência moderna. Epicuro desenvolveu e aprofundou ainda mais essa ideia, mas rejeitou o determinismo mecanicista, propondo, em vez disso, a relação dialética entre necessidade e acaso.

Originalmente, o termo "dialética", do grego "dialektike", que significava a arte da discussão, podendo ser vista em sua forma mais elevada nos diálogos socráticos de Platão. Isso derivava da própria natureza da democracia ateniense, que deu origem a uma nova geração de figuras públicas e professores, desde corajosos livre-pensadores e filósofos profundos até demagogos inescrupulosos. Foi assim que o sofismo se desenvolveu, embora originalmente os sofistas fossem racionalistas e livre-pensadores que se opunham a todos os dogmas e ortodoxias existentes. A ideia básica que fundamenta a dialética do sofismo é a de que a verdade é multifacetada.

A fraqueza deles era subordinar o mundo objetivo à subjetividade e despojá-lo de toda lei e necessidade inerentes. A única fonte de ordem, racionalidade e causalidade era o sujeito que percebe. Tudo era declarado relativo. No entanto, o importante não é o assunto desses diálogos, mas o método. Isso representa, de fato, o nascimento da lógica, que originalmente era o manuseio das palavras (do grego ‘logoi’). Assim, lógica e dialética eram originalmente a mesma coisa – uma técnica para chegar à verdade.

Em contraste com os filósofos gregos anteriores, que geralmente eram materialistas e partiam do estudo da natureza, o idealista Platão conscientemente virou as costas para o mundo dos sentidos. Não a experimentação e a observação, mas a dedução pura e a matemática, por si só, eram o caminho para a verdade, e a cosmologia de Platão representava um recuo da ciência para o misticismo pitagórico.

Questões e sugestões de estudo:

  • O que Heráclito quis dizer quando afirmou que “os olhos e os ouvidos são más testemunhas dos homens se estes tiverem almas que não compreendem a sua linguagem”? Como isso se relaciona com a teoria do conhecimento de Epicuro?
  • Qual é a principal conclusão dos paradoxos de Zenão? Quais são as suas limitações e qual a sua utilidade?
  • Em que medida os elementos fundamentais de uma visão de mundo materialista científica estavam presentes entre os atomistas?
  • O que o autor quer dizer quando afirma que os cientistas modernos “em seus aparatos são mais avançados, mas em seu modo de pensar, estão muito atrás dos primeiros materialistas?”
  • Como o sofismo é o “verdadeiro pai da política profissional moderna, do direito e da diplomacia”?
  • Em que sentido os marxistas empregam o método socrático ao intervir no movimento operário?
  • É um exagero dizer que as ideias de Platão representaram uma contrarrevolução na filosofia? De que forma?

3. Aristóteles e o Fim da Filosofia Clássica Grega

A filosofia de Aristóteles marca uma ruptura drástica com a de Platão. Em vez do método idealista, que vira as costas para a realidade a fim de refugiar-se num mundo de ideias e formas perfeitas, Aristóteles parte dos fatos concretos da percepção sensorial e, a partir deles, chega a fundamentos e princípios últimos.

Aristóteles, contudo, não se limitou a coletar fatos. Baseando-se em informações do mundo material objetivo, ele seguiu para a generalização. Ele resume e critica filosofias anteriores e, portanto, pode também ser considerado o primeiro historiador da filosofia.

Em Metafísica, Aristóteles fornece pela primeira vez uma descrição sistemática de algumas das categorias básicas da dialética. Esse fato é frequentemente negligenciado, porque ele também estabeleceu as leis da lógica formal ('aristotélica'), que, à primeira vista, parecem contradizer a dialética. Na verdade, para Aristóteles, a lógica e a dialética eram ambas formas válidas de pensar. Sua ênfase na investigação estimulou seus alunos a se engajarem em pesquisas práticas frutíferas. Os volumosos estudos em diferentes campos legados pelo Mestre lançaram as bases para o desenvolvimento de várias ciências.

O aspecto flexível e dialético do método de Aristóteles, com sua ênfase na observação e na experimentação, foi perdido de vista por muito tempo. Os escolásticos medievais, interessados apenas em fornecer uma base ideológica para as doutrinas da Igreja, concentraram-se em sua lógica, interpretada de maneira inanimada e formalista, excluindo praticamente todo o resto.

Outra escola filosófica foi a dos cínicos. Estes eram seguidores de Diógenes ou Antístenes, um discípulo de Sócrates, que professava seu desprezo aberto por toda a moral e costumes existentes. Outros levaram essa ideia ao extremo de desejar viver "como um cão", daí a palavra "cínico", do grego para cão. Toda a ideia, em contraste com os cínicos modernos, era desprezar as coisas mundanas.

Essa ideia de se afastar do mundo para buscar a salvação espiritual em si mesmo refletia a profunda crise social e cultural causada pelo declínio das cidades-estado gregas. Eventualmente, levou a uma renúncia completa ao mundo e a uma negação total da possibilidade de conhecer qualquer coisa.

Enquanto o Liceu de Aristóteles produziu importantes resultados científicos, a Academia de Platão caiu cada vez mais sob a influência do ceticismo, que questionava a possibilidade do conhecimento objetivo da realidade. Isso marca uma degeneração do idealismo objetivo para o idealismo subjetivo.

Assim como ocorreu com o declínio posterior do Império Romano, chegamos a uma sociedade que se exauriu econômica, moral e intelectualmente, o que se expressa em um clima geral de pessimismo e desespero.

Questões e sugestões de estudo:

  • Qual é o problema da lei da identidade?
  • O autor usa uma longa citação do Anti-Dühring de Engels para apontar as limitações das leis da lógica formal quando confrontadas com a realidade contraditória da natureza. Você consegue parafrasear isso e apresentar outros exemplos da ciência moderna?
  • De que forma os sofistas transformaram a dialética em uma caricatura? Qual a relevância disso para os dias de hoje?
  • Qual é a principal diferença entre a filosofia de Aristóteles e a de Platão?
  • Herão de Alexandria inventou a famosa máquina a vapor, embora ela nunca tenha sido usada. Por que não?
  • De que forma a filosofia cética foi o resultado lógico do método de dedução?
  • Descreva o processo que levou ao idealismo grego “decadente”.

4. A Ascensão do Cristianismo

A ascensão do cristianismo ocorreu em um período de convulsão e mudança associado à dissolução da sociedade escravista, que se refletiu em uma crise da antiga moralidade, filosofia e religião. O Império Romano, em sua fase de declínio, era um terreno fértil para a disseminação de ideias místicas, o que explica em parte a rápida propagação de novas religiões vindas do Oriente.

Os templos estavam vazios e as pessoas buscavam uma religião que lhes oferecesse algum consolo para seu sofrimento interminável e alguma perspectiva de salvação. Nesse contexto, a ideia de um Salvador, um Redentor, tinha uma atração óbvia, e a Igreja oferecia a cada indivíduo a esperança da salvação e a promessa da vida após a morte.

Os primeiros cristãos formavam um movimento revolucionário baseado nas camadas pobres e oprimidas da sociedade. A comunhão dos crentes se expressava na forma de um comunismo primitivo. Isso logo levou a tentativas de esmagar o movimento cristão por meio da repressão estatal, mas isso falhou e, em vez disso, eles conquistaram apoio em massa. O cínico sem princípios (não no sentido filosófico) Constantino decidiu que a melhor tática era neutralizar os cristãos subornando seus líderes, os bispos, e cooptando-os.

Houve uma consolidação gradual do poder dos bispos e a cristalização de um estrato burocrático privilegiado, que eventualmente se fundiu com o Estado romano. Quando a nova religião foi reconhecida pelo Imperador Constantino, ela havia se transformado em seu oposto. De um movimento revolucionário dos pobres e oprimidos, a Igreja foi absorvida pelo Estado para se tornar uma arma formidável nas mãos dos ricos e poderosos. Em vez da razão, os Padres da Igreja pregavam a fé cega, com a ciência sendo vista com suspeita e como uma herança do paganismo.

Questões e sugestões de estudo:

  • Como o movimento cristão primitivo se transformou em seu oposto e qual foi a base material para isso?
  • O que você sabe sobre os evangelhos e por que alguns foram incluídos na Bíblia e outros não? O que isso revela sobre a Bíblia como a conhecemos hoje?
  • Qual é o significado filosófico da famosa frase de Tertuliano “Credo, quia absurdum est” – “Creio porque é absurdo”?
  • O que significa a crença em milagres?
  • Explique como a morte de Hipátia marcou o fim do paganismo e o triunfo do cristianismo. Quais foram as implicações para a ciência?

5. Filosofia Islâmica

Na ausência de uma alternativa revolucionária, o colapso da sociedade escravista produziu um terrível declínio cultural na Europa, cujos efeitos perduraram por séculos. No período conhecido como Idade das Trevas, as conquistas científicas e artísticas da Antiguidade foram em grande parte perdidas. A chama do conhecimento manteve-se acesa em Bizâncio, na Irlanda e, sobretudo, no mundo islâmico.

O advento do Islã transformou radicalmente a vida de milhões de pessoas. Com sua mensagem simples e igualitária, encontrou eco, especialmente entre as camadas mais pobres e oprimidas da população, que acolheram os invasores árabes mais como libertadores do que como opressores. Em suas origens, o Islã representou um movimento revolucionário e o despertar da nação árabe.

De forma semelhante às invasões góticas dos séculos IV e V, as primeiras conquistas árabes varreram a estrutura decadente do Estado imperial. Isso produziu um profundo despertar espiritual e intelectual em todo esse império recém-formado, principalmente entre os próprios conquistadores muçulmanos. Apesar das frequentes tentativas posteriores dos chamados fundamentalistas de interpretar o Islã em um espírito estreito e fanático que nega o pensamento independente e a investigação cultural, em seu período inicial, a revolução islâmica deu um poderoso impulso à cultura, à arte e à filosofia.

Mais tarde, também, ao longo da Idade Média, os únicos avanços reais na matemática foram feitos pelos indianos (trigonometria) e árabes (álgebra).

Questões e sugestões de estudo:

  • Como foi possível alcançar a conquista islâmica na Espanha tão rapidamente?
  • Qual foi o impacto de Ibn Rushd Muhammad (Averróis) no mundo ocidental?
  • O que os marxistas têm a dizer sobre as Cruzadas quando analisadas sob a perspectiva do materialismo histórico?
  • Quais paralelos existem ao comparar o Islã com o cristianismo primitivo?

6. Filosofia na Idade Média

Após o colapso do Império Romano do Ocidente no século V, a maior parte da Europa entrou em um período de barbárie conhecido como Idade das Trevas, caracterizado por um declínio trágico da cultura. Todos os enormes avanços feitos pelos gregos e romanos nas esferas da arte, ciência e filosofia foram perdidos por centenas de anos. A humanidade teria que percorrer um caminho doloroso de quase mil anos para, então, recuperá-los.

Gradualmente, uma nova forma de sociedade emergiu dos escombros do antigo sistema, baseada na exploração de um campesinato que não era mais escravo, mas sim ligado à terra sob o domínio de senhores temporais e espirituais. A rígida hierarquia social que caracterizava esse sistema feudal encontrou uma expressão ideológica nos dogmas fixos da Igreja, que exigiam obediência inquestionável baseada na interpretação oficial dos textos sagrados. A herança da filosofia grega clássica foi perdida e apenas parcialmente revivida na Europa Ocidental no século XII.

Devido ao monopólio da Igreja sobre a cultura, toda a vida intelectual tinha que ser canalizada por meio dela. Durante séculos, a educação ficou confinada aos mosteiros, sob o estrito controle das autoridades da Igreja. Para os escolásticos medievais, a filosofia era a "serva da teologia". A ciência foi reduzida ao mínimo indispensável.

O pilar ideológico da teocracia medieval eram as ideias de Agostinho, o filósofo mais influente da Idade das Trevas, que se baseou nos elementos mais reacionários do pensamento neoplatônico. Sua filosofia era uma mistura de misticismo cristão e uma forma rudimentar e empobrecida de idealismo platônico. A teoria dos universais de Agostinho estava na base da tendência na filosofia medieval chamada, de forma confusa, de Realismo.

Na tradição educacional monástica, os alunos não tinham permissão para falar, nem mesmo para fazer perguntas. Mas nas universidades as coisas eram bem diferentes, onde debates públicos abertos sobre temas teológicos (as ‘disputatio’) eram comuns. Essa libertação parcial das ideias deu à filosofia um novo fôlego, assim como a tradução de textos científicos e filosóficos do árabe para o latim.

Este foi o início do processo de separação da filosofia e da ciência da religião. Pela primeira vez em centenas de anos, um vislumbre de luz podia ser visto na escuridão que cobria a Europa. Na filosofia, começaram a acumular-se contradições que o antigo paradigma agostiniano não conseguia explicar.

Figuras como Abelardo, o pai do Nominalismo, romperam com o antigo método e rejeitaram o Realismo Agostiniano. Essas ideias representavam um afastamento radical das crenças convencionais da Igreja e deixavam pouco espaço para o sobrenatural. Elas constituíam uma ameaça existencial ao domínio ideológico da Igreja Católica sobre a sociedade medieval, mas a Igreja não conseguiu deter o curso da história.

A teoria do conhecimento de Abelardo tornou-se universalmente aceita e foi apoiada pela redescoberta de Aristóteles. Juntamente com o lento avanço da ciência, lacunas cada vez maiores começaram a aparecer na abordagem agostiniana. Nesse contexto, o averroísmo ganhava terreno rapidamente. Surgiu uma tendência que buscava fundir as visões de mundo platônica e aristotélica, a fim de combater a interpretação averroísta radical de Aristóteles. O representante mais proeminente dessa tendência foi Tomás de Aquino, o mais famoso escolástico medieval, com outros escolásticos como João Duns Scotus e Guilherme de Ockham desenvolvendo um materialismo unilateral e superficial.

Em geral, a filosofia escolástica não ultrapassou as conquistas da filosofia grega clássica. No entanto, desempenhou um papel importante na recuperação dos avanços do passado, preparando o terreno para os avanços realizados durante o Renascimento.

Questões e sugestões de estudo:

  • O que é a teoria da Iluminação Divina e como, juntamente com o Realismo Agostiniano, ela lançou as bases filosóficas da reação medieval?
  • De que maneira Abelardo representou um afastamento radical da crença convencional da Igreja?
  • Como o Nominalismo, enquanto reação contra as doutrinas idealistas estéreis da Igreja medieval, representou um avanço importante, mas também foi fundamentalmente falho?
  • Explique o que o autor quer dizer quando escreve que “o neotomismo permanece uma posição básica da Igreja Católica Romana”.
  • Por que o conflito em torno das ideias de Ockham e das ideias de Copérnico e Galileu não foi meramente um debate intelectual abstrato? O que ele realmente significava?

7. O Renascimento

A ciência moderna tem como ponto de partida o Renascimento, um período de renascimento espiritual e intelectual. A humanidade voltou a olhar para a natureza com olhos desimpedidos por dogmas. Redescobriu as maravilhas da filosofia grega clássica, e a visão de mundo materialista dos antigos jônios e atomistas apontou a ciência para o caminho certo. Este foi um período revolucionário em todos os sentidos da palavra.

O sistema ptolomaico do cosmos, que colocava a Terra no centro, deixou de ser sustentável após as teorias heliocêntricas propostas por Copérnico e Kepler. Logo depois, as observações de Galileu destruíram completamente a antiga visão do universo. No entanto, foi a teoria da gravitação universal de Newton que marcou a ruptura definitiva com a antiga visão de mundo aristotélico-ptolomaica.

A descoberta da circulação sanguínea por William Harvey revolucionou o estudo do corpo humano, destruindo os antigos mitos. As descobertas da ciência, mais do que as disputas lógicas dos filósofos, tornaram as antigas visões insustentáveis. A observação e a experimentação estavam se tornando a norma, com a Inglaterra na vanguarda da defesa do método empírico. O mais proeminente defensor dessa abordagem foi Francis Bacon.

O materialismo “inglês” foi uma reação saudável contra o método estéril do idealismo. Ao virar as costas para o mundo real, o idealismo cria fantasias a partir de sua própria cabeça e as toma como verdade simplesmente porque correspondem a um conjunto de preconceitos preconcebidos que são tomados como axiomas. Em vez disso, Bacon nos exorta a “imitar a natureza, que nada faz em vão”. Significativamente, ele prefere Demócrito, o atomista, a Platão e Aristóteles. Mas o verdadeiro significado da filosofia de Bacon foi que ela apontou o caminho a seguir.

A teoria do conhecimento de Bacon era estritamente empírica. Como Duns Scotus, ele negava enfaticamente a existência de “universais”. Ele desenvolveu o método de raciocínio conhecido como indução, que já está presente nas obras de Aristóteles. Esta é uma maneira de estudar as coisas experimentalmente, na qual partimos de uma série de fatos isolados para proposições gerais. Como antídoto ao idealismo árido dos escolásticos, essa foi uma importante inovação, mas apresentava sérias limitações, que mais tarde se tornaram um obstáculo ao desenvolvimento do pensamento.

Nos escritos de Thomas Hobbes, o materialismo de Bacon é desenvolvido de forma mais sistemática. Em comparação com Bacon, o método de Hobbes é muito mais elaborado, mas ao mesmo tempo torna-se cada vez mais unilateral, rígido, sem alma, em uma palavra, mecanicista. Isso não foi acidental, já que a ciência que avançava mais rapidamente na época era a mecânica.

John Locke continuou na mesma direção que Hobbes, declarando que a experiência é a única fonte de ideias. Ele forneceu a prova para o princípio fundamental de Bacon, de que a origem de todo o conhecimento e ideias humanas era o mundo material que nos é dado pela percepção sensorial. Locke é o filósofo do "bom senso comum".

Com David Hume, a filosofia empírica completa um ciclo. Para Hume, a realidade era apenas uma sequência de impressões, cujas causas são desconhecidas e incognoscíveis. Ele simplesmente desenvolveu uma ideia já presente no bispo idealista Berkeley, a saber, a inexistência da causalidade.

A partir desse ponto, o desenvolvimento da filosofia na Grã-Bretanha foi bloqueado, mas não antes de ter dado um poderoso impulso ao movimento que ficou conhecido como Iluminismo na França, onde a escola materialista adquiriu um conteúdo revolucionário. Nas mãos de Diderot, Rousseau, Holbach e Helvétius, a filosofia tornou-se um instrumento para criticar toda a sociedade existente. Esses grandes pensadores prepararam o caminho para a derrubada revolucionária da monarquia feudal em 1789-93.

Questões e sugestões de estudo:

  • Explique como o desenvolvimento da ciência está intimamente ligado ao crescimento da tecnologia e ao desenvolvimento das forças produtivas.
  • Explique como “a propensão ao pensamento místico não desaparece, mas parece crescer em proporção geométrica ao avanço da ciência”.
  • Qual foi a importância da descoberta do cálculo infinitesimal?
  • Em que sentido as inegáveis contribuições revolucionárias de Newton para a ciência não foram apenas positivas?
  • O que há de problemático no “senso comum”? Quais são as limitações do empirismo?
  • “Interpreto o mundo por meio dos meus sentidos.” Como o materialismo inconsistente leva a conclusões idealistas e como Berkeley explorou essa fraqueza?
  • Como David Hume representa um retorno às ideias dos céticos gregos? Por que isso é um beco sem saída metafísico?

8. Descartes, Spinoza e Leibniz

Até a revolução provocada por Marx e Engels, com sua teoria da dialética materialista, nenhum desenvolvimento adicional do materialismo ocorreu. Mesmo Feuerbach não foi além dos materialistas franceses do século XVIII. Deparamo-nos, portanto, com um dos maiores paradoxos da história da filosofia: os avanços realmente significativos do pensamento no período posterior a Locke foram feitos não pelos materialistas, mas pelos idealistas. Sem as restrições autoimpostas do empirismo, eles chegaram a uma série de generalizações teóricas brilhantes, embora, partindo de hipóteses falsas, invariavelmente tivessem um caráter fantasioso.

A questão da relação entre o pensamento e o ser foi colocada pelo filósofo francês Descartes de maneira diferente da dos empiristas ingleses. Seu ceticismo, em contraste com o pessimismo crítico de Hume, tinha um caráter vivo e positivo. Descartes é um dos principais protagonistas na luta entre racionalismo e empirismo, entre o método da dedução e o da indução. Os racionalistas abordavam a ciência de um ponto de vista diametralmente oposto ao dos empiristas. Descartes estava mais preocupado com os princípios gerais do que com o trabalho detalhado da observação.

O pensamento, de uma posição materialista consistente, é uma matéria pensante. Ele não existe e não pode existir por si só, separado da matéria. Sobre essa questão decisiva, Descartes adotou uma posição insatisfatória e inconsistente, que acabou gerando todo tipo de contradições. A diferença fundamental entre pensamento e matéria, disse ele, era que a matéria tinha extensão no espaço, enquanto o pensamento, o espírito e a alma não tinham nenhuma. Isso nos leva diretamente a uma posição dualista, na qual pensamento e matéria são diametralmente opostos.

Apesar de suas fragilidades, a filosofia de Descartes tinha um lado notavelmente progressista. Seus avanços na ciência estimularam o crescimento das ciências naturais na França. Filosoficamente, o idealismo de Descartes foi derrubado pela tendência materialista predominante do Iluminismo, embora ele tenha influenciado pessoas como La Mettrie. Mas fora da França, suas ideias foram o ponto de partida para dois dos maiores filósofos de todos os tempos, Spinoza e Leibniz.

Spinoza realizou uma verdadeira revolução na filosofia ao tomar como ponto de partida a filosofia de Descartes, transformando-a completamente e lançando as bases para uma abordagem genuinamente científica da natureza. Ao não se restringir aos limites estreitos da filosofia empírica, ele foi capaz de transcender as limitações da ciência mecanicista da época com grandes hipóteses.

Rompendo com Descartes e sua noção de um corpo sem alma e uma alma sem corpo, Spinoza desenvolveu a ideia de que corpo e mente são dois atributos de uma mesma coisa. O universo não é composto de mente e matéria, como alega o dualismo de Descartes. Existe apenas uma única Substância, que contém em si todos os atributos do pensamento e do ser. Ela é infinita e eterna, e possui todo o potencial para dar origem à abundância de fenômenos que vemos no universo.

Spinoza dá a essa Substância o nome de "Deus". Mas, na realidade, igualar Deus à natureza é abolir Deus. No universo de Spinoza, infinito e eterno, e, portanto, incriado e ilimitado pelo céu ou inferno, não há espaço para uma divindade separada. De fato, não há espaço para absolutamente nada além da Substância, que é apenas outra maneira de dizer natureza.

Assim, de uma maneira peculiar, a filosofia de Spinoza, apesar de sua aparência idealista, é o verdadeiro ponto de partida para o materialismo no sentido dialético, ou seja, não mecânico do termo. Tudo o que é necessário é substituir a palavra "Deus" por "matéria" e obtemos uma posição materialista perfeitamente coerente.

As visões monistas de Spinoza foram desafiadas por seu grande contemporâneo, Gottfried Leibniz. Idealista objetivo, Leibniz, no entanto, desenvolveu a dialética. A base da filosofia de Spinoza era a única substância universal. Leibniz também parte da noção de substância, mas a define de maneira diferente – como atividade vital, movimento interno e energia. Leibniz enfatiza a multiplicidade do universo, que para ele é composto por um número infinito de substâncias que ele chama de ‘mônadas’.

Apesar de sua forma idealista, na filosofia de Leibniz existe o germe de uma ideia profunda e um conceito dialético da natureza, baseado no movimento, nas conexões infinitas, na mudança e na evolução de um estágio inferior para um superior.

Em resumo, nas obras de Descartes, Spinoza e Leibniz, vemos conclusões brilhantes alcançadas com base nos desenvolvimentos da ciência. Essas conquistas, no entanto, foram limitadas pelo fato de que a ciência, nessa fase, permaneceu subordinada à filosofia tradicional.

Questões e sugestões de estudo:

  • Quais eram as fragilidades da filosofia de Descartes?
  • O que havia de tão revolucionário na afirmação de Spinoza de que pensamento e matéria são “uma e a mesma coisa, mas expressas de duas maneiras”?
  • O que é monismo? Spinoza era monista? E Marx e Engels?
  • Explique como Spinoza era formalmente um idealista, mas se aproximou muito de uma posição materialista.
  • Por que Feuerbach considerava Leibniz “apenas meio cristão, ateu ou uma mistura de cristão e naturalista”?

9. O Beco Sem Saída do Kantismo

Immanuel Kant marca o início de uma virada na filosofia. Quando Kant iniciou sua atividade intelectual, a filosofia alemã havia chegado a um beco sem saída. Os brilhantes lampejos de inspiração que caracterizaram o pensamento de Leibniz não constituíam, de fato, uma escola filosófica coerente. Kant se sentia repelido pela especulação metafísica, que tentava desvendar os mistérios do universo não pela observação da natureza, mas por meio de intermináveis raciocínios abstratos.

Em sua obra mais importante, a Crítica da Razão Pura, Kant busca resolver o problema do conhecimento, que havia provocado uma crise na filosofia, cuja expressão mais clara era o idealismo subjetivo de Berkeley e o ceticismo de Hume. Kant questiona o que podemos conhecer e como podemos conhecê-lo. Essa é uma das questões centrais da filosofia – a teoria do conhecimento ou cognição (Epistemologia).

Kant foi o primeiro a distinguir entre Entendimento (Verstand) e Razão (Vernunft). Embora desempenhe um papel importante, para Kant, o Entendimento é a forma mais baixa de pensamento racional. Ele toma as coisas como elas são e se baseia no registro e em uma classificação superficial do mero fato da existência. Esta é a base da lógica formal e também do ‘senso comum’, que considera as coisas como elas são exatamente como parecem.

Mas o processo de pensamento não se encerra no nível do entendimento e da experiência sensorial imediata. Para avançar em direção a um entendimento dialético, precisamos da intervenção da Razão, que vai além do que é imediatamente dado, decompõe-no em suas partes constituintes e o reconstrói. Este é o papel da Dialética. Até Kant, a arte da dialética havia sido praticamente esquecida. Era considerada mera artimanha e sofisma, a ‘lógica da ilusão’. Foi a grande conquista de Kant restaurar a dialética ao seu devido lugar na filosofia, como uma forma superior de lógica.

Em suas ‘antinomias’, Kant mostra as contradições que existem no pensamento. Assim, partindo das leis da lógica formal e aplicando-as ao mundo da experiência, Kant procede a mostrar as contradições que surgem. Kant toma isso como prova da incognoscibilidade da Coisa-em-Si, em vez de perceber que as contradições são objetivas e presentes nos próprios fenômenos.

O mérito de Kant foi submeter as formas tradicionais da lógica a uma crítica completa. Seu defeito residia em sua posição subjetivista sobre a teoria do conhecimento. Essa foi a fonte de suas principais fraquezas – ambiguidade, inconsistência e agnosticismo. Ao não romper completamente com a lógica tradicional, enquanto expunha suas limitações, Kant se viu em todo tipo de contradições insolúveis, que deixou sem solução. O problema da relação entre sujeito e objeto (pensamento e ser) só foi finalmente resolvido por Marx e Engels, que apontaram que, em última análise, todos os problemas da filosofia são resolvidos na prática.

Questões e sugestões de estudo:

  • Qual é a tarefa da ciência? O que Kant tinha a dizer sobre isso?
  • A relação sujeito-objeto foi uma questão central na filosofia durante séculos. Como Kant lidou com essa questão?
  • O que há de problemático em todo o conceito de conhecimento a priori? O que Engels escreveu sobre isso em Anti-Dühring?
  • Por que o idealismo objetivo é superior ao idealismo subjetivo?
  • Qual é o valor das “antinomias” de Kant?

10. A Revolução de Hegel na Filosofia

Para o leitor moderno, os escritos de Hegel apresentam dificuldades consideráveis, em grande parte decorrentes do fato de Hegel ser um idealista e, portanto, a dialética aparecer aqui de forma mistificada. Aqui, o desenvolvimento histórico surge de maneira idealista, como o desenvolvimento da mente (ou espírito) autoconsciente.

No entanto, é possível ler Hegel, como Marx o fez, de um ponto de vista materialista, revelando o núcleo racional de seu pensamento. Em A Fenomenologia do Espírito, a “autoconsciência” revela sua atividade de muitas maneiras, por meio da sensação e da percepção, bem como por meio das ideias. Em tudo isso, é possível perceber o esboço tênue dos processos reais que ocorrem na natureza, na sociedade e na mente humana. Em contraste com as filosofias idealistas anteriores, Hegel demonstrou um vivo interesse pelos fatos da natureza, da natureza humana e da história humana. Por trás de sua apresentação abstrata, reside uma riqueza de conhecimento de todos os aspectos da história, da filosofia e da ciência contemporânea.

O que havia de valioso na filosofia de Hegel não era seu sistema, mas o método dialético. Parte da razão pela qual os escritos de Hegel são obscuros reside precisamente no fato de ele ter tentado forçar a dialética – que ele desenvolveu brilhantemente – a se encaixar na camisa de força de um sistema filosófico idealista arbitrário. Quando isso não se encaixava, ele recorria a todo tipo de subterfúgios e modos peculiares de raciocínio que tornam tudo extremamente complexo e obscuro.

Não obstante, o grande mérito de Hegel foi mostrar o caráter dialético do desenvolvimento do pensamento humano, desde sua fase embrionária, passando por toda uma série de estágios, até finalmente chegar ao estágio mais elevado da razão: a Noção. Na linguagem hegeliana, trata-se do processo de ser “em si” para ser “em e para si”, ou seja, do ser não desenvolvido e implícito para o ser desenvolvido e explícito.

No cerne dessa filosofia está uma visão dinâmica do universo; uma visão que lida com as coisas como processos vivos, não como objetos mortos; em suas inter-relações essenciais, não como partes separadas ou listas arbitrárias; como um todo, que é maior que a soma das partes. Tudo na realidade consiste na unidade de quantidade e qualidade, que Hegel chamou de Medida. Além disso, não há apenas mudanças de quantidade para qualidade, mas também o processo inverso, onde uma mudança na qualidade causa uma mudança na quantidade. Os pontos críticos de transição de um estado para outro são expressos como pontos nodais na linha nodal de medida de Hegel.

A Doutrina da Essência é a parte mais importante da filosofia de Hegel, porque é aqui que ele explica a dialética em detalhes. O pensamento humano não se detém no que é imediatamente dado pela percepção sensorial, mas busca ir além e apreender a coisa-em-si. A contradição que reside no âmago de todas as coisas é expressa como a ideia da unidade dos opostos. Dialeticamente, o que parecem ser fenômenos mutuamente exclusivos são, na verdade, inseparáveis.

Hegel não se propôs a negar ou demolir a filosofia anterior, mas sim a resumir todas as escolas de pensamento anteriores e chegar a uma síntese dialética. Ao fazer isso, porém, ele levou a filosofia aos seus limites. Além desse ponto, tornou-se impossível desenvolver a filosofia sem transformá-la em algo diferente.

A qualidade inovadora da filosofia de Hegel consistia no fato de que, ao resumir toda a história da filosofia de uma forma tão abrangente, ele tornou impossível prosseguir pelas linhas filosóficas tradicionais. Em segundo lugar, o método dialético, que ele aperfeiçoou, forneceu a base para uma visão de mundo completamente nova, que não se limitava à análise e à crítica de ideias, mas envolvia uma análise da história da sociedade e uma crítica revolucionária da ordem social existente.

A dialética de Hegel foi brilhantemente concebida, mas, em última análise, deficiente, porque se limitava ao domínio do pensamento. No entanto, ela continha o potencial para uma grande ruptura no pensamento, que alteraria radicalmente não apenas a história da filosofia, mas a do mundo.

Questões e sugestões de estudo:

  • Você consegue pensar em alguns exemplos de um processo que vai do ser ‘em si’ ao ser ‘em e para si’?
  • O que Hegel quer dizer quando afirma que não existe causalidade verdadeira?
  • Por que o primeiro princípio do pensamento dialético é a objetividade absoluta?
  • Como Hegel supera a contradição entre pensamento e ser, entre ‘sujeito’ e ‘objeto’?
  • O que o democrata radical russo Herzen quis dizer quando se referiu à dialética hegeliana como “a álgebra da revolução”?
  • Por que Engels descreveu a filosofia de Hegel como o “fracasso colossal” da história?

11. De Hegel a Marx

Após a morte de Hegel em 1831, sua Escola inevitavelmente se desintegrou e se fragmentou, vítima de suas próprias contradições internas. A Escola Hegeliana dividiu-se em duas alas – a direita e a esquerda. Uma expressão disso foi o marxismo, que se afastou completamente da filosofia (pelo menos, da filosofia como até então entendida).

Os primeiros escritos dos fundadores do socialismo científico demonstram claramente suas origens hegelianas. O verdadeiro acerto de contas com Hegel pode ser rastreado até A Sagrada Família, A Ideologia Alemã e, particularmente, as famosas Teses sobre Feuerbach. Mas o marxismo não surgiu, pronto e acabado, como Atena da cabeça de Zeus. Marx e Engels primeiro tiveram que passar pela escola preparatória da esquerda hegeliana.

As implicações revolucionárias da filosofia de Hegel já estavam implícitas nos escritos dos hegelianos de esquerda, embora de maneira confusa e ainda idealista. Para levá-la adiante, era necessária uma reviravolta completa: o abandono total do idealismo e a transição para o materialismo. Mas os hegelianos de esquerda eram incapazes de fazer essa transição, e coube a Marx e Engels submeter suas ideias filosóficas a uma crítica implacável. Eles demoliram a concepção idealista subjetiva da autoconsciência, explicando que a realidade percebida sensorialmente existe independentemente da consciência do observador. Eles apontaram que o mundo continua a existir mesmo quando o sujeito não está presente para percebê-lo.

Essa crítica à "Crítica Crítica" é desenvolvida sistematicamente em A Sagrada Família, na qual Marx e Engels provam que a filosofia subjetivista de Bauer apenas leva a um fim lógico a ideia básica da Fenomenologia do Espírito de Hegel: a substância deve ascender à autoconsciência. Em vez dessas abstrações sem vida, os fundadores do socialismo científico partiram de homens e mulheres reais e concretos da sociedade, da história real, e não do mundo espiritual da "autoconsciência" idealista.

No entanto, foi a figura trágica de Ludwig Feuerbach quem primeiro desafiou Hegel de um ponto de vista materialista. Ele decidiu atacar as raízes do idealismo, atacando a própria religião. Fez isso em seu livro, A Essência do Cristianismo. O lançamento desta obra seminal em 1841 teve consequências revolucionárias. A leitura materialista da religião feita por Feuerbach foi um importante passo adiante, apontando o caminho para uma ruptura definitiva com o idealismo.

As ideias de Feuerbach representaram uma grande revolução filosófica e tiveram um grande impacto nos jovens Marx e Engels. Mas, em última análise, fracassaram. Feuerbach considerava a consciência humana principalmente como um reflexo da natureza, embora também enfatizasse que o homem chegava a compreender sua própria natureza e suas relações com outros homens. No entanto, suas conclusões são extremamente frágeis. Sua única alternativa à dominação da religião é a educação, a moralidade, o amor e até mesmo uma nova religião. Para Feuerbach, o problema central da alienação é religioso, mas isso deixou completamente de lado a verdadeira mola mestra e a origem de toda alienação – a alienação do trabalho de si mesmo na forma de mais-valia no processo de produção capitalista.

O problema com Feuerbach é que ele simplesmente disse não a Hegel, negando sua filosofia ao simplesmente rejeitá-la. Seu principal erro foi jogar fora o bebê junto com a água do banho. Ao rejeitar a filosofia de Hegel, ele também rejeitou seu núcleo racional – a dialética. Isso explica o caráter unilateral do materialismo de Feuerbach, que causou sua queda.

Foi necessário o gênio de um Marx para descobrir o núcleo racional que jazia oculto nas páginas da Lógica de Hegel e aplicá-lo ao mundo real e material. Ele também explicou que a deficiência do “materialismo antropológico” de Feuerbach é que, nele, o indivíduo é concebido como uma entidade abstrata. Mas a atividade humana real (o trabalho) não é a atividade de indivíduos isolados. Ela é necessariamente coletiva em sua essência.

Precisamente neste ponto chegamos a um ponto de partida totalmente novo, uma ruptura fundamental com toda a filosofia anterior. Ela encontra sua expressão naquela que é talvez a maior e mais importante das Teses sobre Feuerbach de Marx: a célebre décima primeira tese – “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de várias maneiras; o importante é transformá-lo”. Aqui, o pensamento filosófico – a mais elevada e sublime conquista do espírito humano – deixa, pela primeira vez, de ser meramente uma atividade contemplativa e se torna uma arma formidável na luta para transformar a sociedade.

Ao chegarmos ao fim deste trabalho sobre a história da filosofia, vale a pena destacar que muitas pessoas não percebem que o escopo do marxismo se estende muito além da política e da economia. No cerne do marxismo está a filosofia do materialismo dialético. Infelizmente, o imenso trabalho de escrever O Capital impediu Marx de escrever uma obra abrangente sobre o assunto, como ele pretendia.

Questões e sugestões de estudo:

  • Por que o hegelianismo, mesmo em sua versão “de esquerda”, chegou a um beco sem saída?
  • Como nós, marxistas, encaramos o pensamento humano? Como isso se compara à Ideia Absoluta de Hegel?
  • Feuerbach pode ser considerado um catalisador do movimento operário? Qual é a nossa avaliação dele?
  • O que exatamente Marx e Engels disseram sobre a “falsa consciência”?
  • Por que a evolução do pensamento e da ciência não é um círculo infinito, mas sim uma espiral? Onde isso deixa o marxismo e o “fim da filosofia”?

Join us

If you want more information about joining the RCI, fill in this form. We will get back to you as soon as possible.