Grã-Bretanha: qual é a posição do PCR sobre o “Seu Partido”? Share TweetEm julho, Jeremy Corbyn e Zarah Sultana anunciaram a formação de um novo partido político. Isso provocou uma onda de entusiasmo, com 800 mil pessoas se inscrevendo para uma alternativa de esquerda ao odiado Partido Trabalhista de Starmer.O que poderia ter sidoNaquele momento, o potencial desse novo partido era enorme. Ele poderia ter dado expressão política ao movimento pró-Palestina e a todas as greves que eclodiam por todo o país.Corbyn e Sultana também poderiam ter coordenado a oposição à visita de Estado de Trump ao Reino Unido e à manifestação "Unite the Kingdom" de Tommy Robinson em setembro.Eles poderiam ter atacado os ricos e o sistema capitalista como a causa da crise na Grã-Bretanha, em vez de permitir que Farage dominasse com sua retórica anti-imigração.Eles poderiam ter arrecadado milhões em pequenas doações, como Mamdani em Nova York, para realizar comícios e conferências por todo o país.Começando com 800 mil pessoas, se Corbyn e Sultana tivessem se conectado com o sentimento que existe na Grã-Bretanha atualmente, eles poderiam estar à frente de um movimento com milhões de pessoas agora.Infelizmente, não poderíamos estar mais longe disso hoje.O que realmente ocorreu?Os 800.000 membros do partido no verão passado se reduziram a apenas 50.000, a maioria dos quais não pertence à camada jovem, fresca e radical que compôs os movimentos pelos direitos dos palestinos ou os movimentos de massa em outros países.O novo “Seu Partido” realizará sua conferência de fundação neste fim de semana. Infelizmente, é provável que seja um amontoado de pequenas disputas. Quase nenhuma política séria será discutida.Há 30 páginas de documentos organizacionais para serem debatidos. São todos regimentos internos e estatutos, que serão completamente alienantes para a maioria das pessoas comuns.Enquanto isso, há apenas uma página com conteúdo político para discussão. E, francamente, é fraco. Afirma que o partido defende “paz, igualdade, justiça social e solidariedade internacional” – algo que a maioria dos apoiadores do Partido Trabalhista, dos Liberais Democratas e até mesmo alguns Conservadores apoiariam.Este documento político propõe que o partido se oponha à “ordem capitalista neoliberal” – então um tipo diferente de ordem capitalista seria aceitável? Opõe-se a “níveis grotescos de desigualdade” – então a desigualdade é aceitável desde que seja um pouco menor?E defende a “propriedade pública e comunitária de setores e serviços econômicos essenciais” – uma definição vaga o suficiente para simplesmente significar a reestatização das ferrovias, algo que o Partido Trabalhista já está fazendo.Essa proposta tímida não poderia estar mais distante da raiva militante, indignada, anti-establishment e anticapitalista de milhões de jovens e trabalhadores britânicos hoje.Na verdade, desde julho, Zack Polanski foi eleito líder do Partido Verde e está se conectando muito melhor com esse sentimento. Sua abordagem, embora reformista em conteúdo, é mais beligerante e anti-establishment do que qualquer coisa que esse novo partido esteja apresentando oficialmente.O resultado é que os Verdes estão ocupando o espaço à esquerda do Partido Trabalhista, com 47% das intenções de voto entre os jovens com menos de 24 anos, e congrega uma organização juvenil e estudantil com 40.000 membros.Como isso aconteceu?É impressionante como tanto potencial foi desperdiçado em apenas quatro meses. Infelizmente, a culpa recai sobre Corbyn e Sultana.Corbyn está alheio ao sentimento da classe trabalhadora e da juventude britânica. Com base em sua própria experiência como líder do Partido Trabalhista e na ascensão do Reform UK, ele chegou a conclusões pessimistas, defensivas e conservadoras.É por isso que ele tem protelado a formação de um novo partido. E é por isso que priorizou alianças com parlamentares independentes moderados – alguns dos quais já se distanciaram do Partido Trabalhista – e outros grupos que não têm interesse no socialismo.É também por isso que sua posição política atual é, na verdade, menos radical que o seu programa eleitoral como líder do Partido Trabalhista em 2017.Sultana deixou o Partido Trabalhista para se juntar à equipe de Corbyn, condicionada a uma promessa feita nos bastidores de que seria "co-líder" do novo partido. A quebra dessa promessa levou Sultana a buscar uma nova base de apoio para tentar tomar a liderança de Corbyn.Inicialmente, ela tentou usar a política identitária liberal, acusando publicamente Corbyn de comandar um "clube machista". Agora, ela está cortejando grupos sectários como o Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP) e o Partido Socialista (SP), tentando garantir seus votos na conferência de fundação.Consequentemente, ela adotou uma linguagem mais à esquerda. Declarou, por exemplo, "vamos levar tudo o que possamos", referindo-se à nacionalização dos bancos e à obrigação de fazer os ricos pagarem pela crise do capitalismo.Mas essa retórica vaga se combina com um reformismo bastante moderado quando se trata de políticas concretas. Recentemente, ela declarou à BBC que sua ambição é simplesmente "governar" e que este é um "projeto de 40 anos" para se "fazer justiça". E embora às vezes fale em expropriação, na maioria das vezes ela fala em taxar os ricos como solução.Essa confusão é um reflexo do reformismo de esquerda, que não oferece respostas para a crise do capitalismo.Corbyn e Sultana se detestam tanto que mal se falam. Há até rumores de que Sultana será impedida de discursar na conferência de fundação. Com uma liderança assim, não é de se admirar que todo o potencial tenha sido desperdiçado.As tarefas dos comunistasUm movimento de massas em direção à formação de um novo partido de esquerda na Grã-Bretanha é algo que os comunistas deveriam acolher com entusiasmo.Em julho, parecia que era isso o que estava começando com o lançamento do Your Party, e o Partido Comunista Revolucionário (PCR) saudou esses desenvolvimentos. Infelizmente, nos últimos quatro meses, esse potencial foi desperdiçado.Hoje, ninguém fala sobre o novo partido; ou, quando falam, não é para dizer nada de bom. As artimanhas de Corbyn e Sultana isolaram o partido deles da indignação generalizada que existe na Grã-Bretanha atualmente.Essa situação não necessariamente persistirá para sempre. Estamos vivendo tempos turbulentos porque a crise do capitalismo é profunda. O sentimento de raiva e anti-establishment é generalizado e busca desesperadamente uma forma de expressão.O Partido Conservador, durante séculos o partido político mais bem-sucedido da Europa, foi reduzido a escombros em menos de 18 meses. O Partido Trabalhista provavelmente passará de uma maioria esmagadora a um grupo minoritário no espaço de um mandato parlamentar.Enquanto isso, o Partido Reform UK e os Verdes parecem prestes a romper com o sistema bipartidário que dominou a política britânica nos últimos cem anos.Da mesma forma, não se pode descartar a possibilidade de que algo um pouco mais promissor surja dessa confusão envolvendo Corbyn e Sultana. Isso poderia acontecer rapidamente, por acaso, e apesar da péssima liderança deles. É impossível dizer como seria, quais personalidades estariam envolvidas e como se relacionaria com outras formações como os Verdes.Mas os detalhes não são particularmente importantes; eles serão determinados por eventos reais, não por especulações ociosas. O que está claro é que, neste momento, não há nenhum movimento de massa em torno de Corbyn e Sultana.O importante é entender que o reformismo de esquerda na Grã-Bretanha ressurgirá, de uma forma ou de outra – especialmente à medida que o reformismo se fortaleça e potencialmente chegue ao poder, e à medida que a crise e a radicalização na sociedade se intensifiquem.Nesse processo, os comunistas lutarão nas batalhas que surgirem, ombro a ombro com a classe trabalhadora, buscando um mundo melhor, argumentando que isso só pode ser alcançado, em última análise, com a derrubada do sistema capitalista.Nossa tarefa agora é nos prepararmos para esse movimento, seja qual for a forma que ele assuma, fortalecendo as forças do comunismo. Hoje, isso significa evitar pequenas disputas entre reformistas e concentrar toda a nossa energia na construção do Partido Comunista Revolucionário.