"Bloquear tudo!" – semanas em que décadas acontecem

A greve geral contra o genocídio em Gaza, em 22 de setembro, representou uma enorme explosão de raiva popular, com profundas implicações além das fronteiras da Itália. A ideia de que uma ação direta em massa é necessária para deter o ataque assassino de Israel contra os palestinos agora tem um papel predominante. Ao mesmo tempo, o protesto em massa italiano também pode ser visto como parte de um "Setembro Vermelho" de revoltas, revoluções e insurreições em massa em todo o mundo.

Os camaradas italianos do Partido Comunista Revolucionário (PCR) já fizeram um balanço do movimento de massas de 22 de setembro, mas vale a pena rever os principais fatos aqui.

Sob enorme pressão da base, os dirigentes da principal confederação sindical, a CGIL, convocaram uma greve de 2 horas em cada turno na sexta-feira, 19 de setembro. A ideia era canalizar a indignação com uma ação principalmente simbólica. A direção nacional não fez nada para tornar a greve de 2 horas um êxito. Na verdade, ao deixar a decisão final para as estruturas locais, regionais e dos locais de trabalho, eles provavelmente apostavam que seria um fracasso, para poderem então dizer: "Vejam, convocamos uma greve, mas os trabalhadores não participaram". Apesar disso, dezenas de milhares marcharam por todo o país.

Um pequeno sindicato militante, o USB, convocou uma greve de 24 horas para segunda-feira, 22 de setembro. A greve em si teve um número irregular de adesões, afetando escolas, transporte público e o serviço de saúde. É claro que envolveu não apenas membros do USB, mas também milhares de trabalhadores que são membros da CGIL – apesar das deficiências de sua liderança – e muitos que não são filiados a nenhum sindicato.

Mas centenas de milhares foram às ruas durante o dia em mais de 80 cidades grandes e pequenas em todo o país, em uma impressionante demonstração de solidariedade à Palestina. O USB é pequeno demais para ter realmente organizado o movimento que vimos na segunda-feira. É claro que o USB deve ser parabenizado por ter tomado a iniciativa e por ter feito o chamado legal para a greve. Este foi um daqueles momentos em que a simples menção da data serviu como ponto de encontro para uma onda de indignação crescente, que vinha se acumulando e agora encontrava um canal de expressão.

Cem mil pessoas saíram às ruas em Roma, 50 mil saíram sem se deixar abater pela chuva torrencial em Milão, dezenas de milhares em Turim, Bolonha, Gênova e uma longa lista de cidades grandes e pequenas.

"Bloquear tudo"

Estas não foram manifestações habituais, marchando do ponto A ao ponto B seguidas de discursos mornos e pouco inspiradores no palco. A palavra de ordem era "Bloquear tudo" (Blocchiamo tutto) – uma referência direta ao movimento grevista francês de 10 e 18 de setembro, que claramente serviu de inspiração para milhões de trabalhadores e jovens italianos.

Como na Itália, o movimento na França não foi organizado pela liderança da CGT, mas surgiu de baixo, de forma semi-espontânea. Os líderes da CGT tiveram que ser arrastados para dentro dele, aos pontapés e aos gritos, e desempenharam principalmente o papel de atenuar o clima, limitar o alcance do movimento e, de modo geral, tentar desviar a raiva para canais seguros e inofensivos.

Na Itália, milhares participaram de piquetes em massa em frente a estações ferroviárias, centros de transporte, portos e rodovias, todos bloqueados. Houve muitas manifestações em massa em solidariedade à Palestina nos últimos dois anos. As massas nas ruas da Itália na segunda-feira entenderam que simplesmente protestar não basta.

Em Livorno, os estivadores, com o apoio dos trabalhadores e jovens locais, ocuparam o porto e impediram fisicamente a atracação do SLNC Severn, um navio que transportava material militar dos EUA. Após três dias de ocupação, foi confirmado que o navio havia sido mandado embora e não retornaria.

Ao final da manifestação em Roma, milhares de pessoas marcharam para bloquear os principais anéis viários da capital. Foram recebidos com a solidariedade e o apoio dos condutores. Claudio Belloti, um dos principais membros do PCR em Roma, descreveu o clima da seguinte forma:

“Clima eletrizante em Roma, enorme multidão na manifestação e incrível demonstração de solidariedade dos transeuntes. Até mesmo os condutores dos automóveis bloqueados pela manifestação buzinaram em aprovação, saudaram com os punhos cerrados, e alguns até agitaram a bandeira palestina! A barragem se rompeu e um rio de ação em massa está fluindo.”

Outra característica significativa do movimento italiano na segunda-feira foi a participação dos jovens, que saíram em blocos organizados de escolas de ensino médio e universidades. O clima que pode ser visto nos vídeos é de muita raiva, mas também de determinação. Isso está em sintonia com os movimentos de massa que vimos em outros países.

A flotilha de solidariedade a Gaza galvanizou um movimento de massas sem precedentes. Dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas para despedi-la em Gênova e Barcelona há algumas semanas. Em 22 de setembro, na Itália, as massas experimentaram sua própria força.

O movimento emitiu um alerta de que, no dia em que Israel atacar a flotilha, trabalhadores e jovens paralisarão a Itália. Não se trata de uma simples ameaça. Segunda-feira foi o ensaio geral. A liderança da CGIL, completamente superada pelo movimento de massas em 22 de setembro, decidiu agora se juntar a esse apelo do USB.

Clima semelhante vem se desenvolvendo no Estado espanhol, onde 100.000 pessoas saíram às ruas em Madri para bloquear a última etapa da prova de ciclismo Vuelta a España. Protestos já haviam ocorrido em etapas anteriores, com manifestantes interrompendo a corrida em rejeição à participação de uma equipe israelense, mas a situação chegou ao auge em Madri em 14 de setembro.

Milhares de policiais de choque foram mobilizados para garantir que a corrida terminasse conforme o planejado e que houvesse uma cerimônia de premiação. Mas como policiar o percurso de uma corrida de ciclismo com dezenas de quilômetros de extensão?

Dezenas de milhares de pessoas se alinharam ao longo do percurso, prontas para expressar sua raiva. Em vários pontos do centro de Madri, romperam as cercas de proteção e usaram essas mesmas cercas para bloquear as ruas por onde os ciclistas deveriam passar. A polícia os atacou com gás lacrimogêneo e projéteis de espuma, mas a multidão reagiu bravamente, dominando-os e forçando os organizadores a cancelarem a corrida.

Foi feito um apelo por uma greve estudantil nacional em 2 de outubro, bem como um alerta semelhante de que, no dia em que Israel atacar a flotilha, o Estado espanhol também será paralisado por um movimento de protestos em massa. Agora, até mesmo os líderes das principais confederações sindicais, a UGT e a CCOO, convocaram um dia de ação nos locais de trabalho pela Palestina... em 15 de outubro. Muitos dizem que isso é muito pouco e chega muito tarde.

Um turbilhão global

É impossível não ver nestes eventos o eco das revoltas em massa na Indonésia e no Nepal nas últimas semanas, bem como do movimento de massas na França mencionado anteriormente. Eles, por sua vez, serviram de inspiração para movimentos de massas, em muitos casos liderados pela juventude, no Timor Leste, nas Filipinas e agora também no Peru.

No Equador, a organização indígena e camponesa CONAIE lançou uma greve nacional contra o fim dos subsídios aos combustíveis e contra a corrupção e a criminalidade sob o governo de Noboa. Enquanto escrevo estas linhas, os jovens de Madagascar saíram às ruas para protestar contra os cortes de água e eletricidade. Uma greve geral foi convocada na Grécia para 1º de outubro e um dia nacional de greve na França para 2 de outubro. O movimento de massas sérvio também continua após 10 meses.

Que fique claro: não estamos falando apenas de movimentos que se imitam. Não. Cada um deles tem suas raízes nas condições reais de cada um desses países: o descrédito da elite política corrupta, o abismo enorme entre ricos e pobres, uma geração de jovens sem futuro, 15 anos de políticas de austeridade que agora são seguidos por mais uma tentativa de fazer os trabalhadores pagarem pela crise do capitalismo, etc. Essas são as condições que criaram uma situação extremamente inflamável em todo o mundo. A questão é que, em um grau ou outro, essas mesmas condições agora existem em muitos e diferentes países ao redor do mundo!

O fato de a bandeira pirata da Tripulação do Chapéu de Palha (do mangá One Piece), usada pelos manifestantes na Indonésia no início deste mês, estar sendo hasteada também em Paris, Lima, Manila e Antananarivo, demonstra que a juventude compreende instintivamente o caráter internacional de seu movimento.

Ao mesmo tempo, é inegável que as imagens das massas nepalesas incendiando os odiados locais de poder têm sido uma poderosa fonte de inspiração, assim como as imagens das massas invadindo o palácio presidencial no Sri Lanka há poucos anos.

Os vídeos, compartilhados instantaneamente nas redes sociais, de trabalhadores e jovens franceses paralisando o país, oferecem um exemplo palpável do poder da classe trabalhadora para milhões de pessoas que anseiam por mudanças. A ideia se consolidou: algo precisa ser feito, algo pode ser feito, a ação direta das massas é o caminho a seguir.

E o massacre em Gaza serviu como um para-raios para atrair a raiva acumulada contra a classe dominante e seus repugnantes padrões duplos – um genocídio transmitido ao vivo por quase dois anos, com todas as potências imperialistas ocidentais dando total apoio a Israel.

Também nas últimas semanas, assistimos a enormes e sem precedentes manifestações em solidariedade à Palestina, na Holanda, na Bélgica e na Austrália.

A situação criada é tão explosiva que forçou os governantes da Grã-Bretanha, Canadá, França e Austrália a tentarem se insinuar junto à opinião pública, reconhecendo o Estado Palestino – um Estado que não tem existência real – enquanto, ao mesmo tempo, continuam a armar e financiar o Estado israelense, que está cometendo o genocídio.

No Estado espanhol, onde o humor da opinião pública é ainda mais radical, e o Partido Socialista no poder está numa coligação instável e depende de uma maioria parlamentar muito frágil, Pedro Sánchez foi mesmo forçado a prometer um embargo total de armas a Israel (embora seja preciso ler atentamente as letras miúdas para se ver que há ressalvas).

Itália e Espanha enviam navios da Marinha "para ajudar" a Flotilha de Gaza

Na noite de 23 para 24 de setembro, a Flotilha de Gaza foi atacada por drones e suas comunicações de rádio foram bloqueadas. É claro para qualquer pessoa com bom senso que este foi mais um alerta de Israel contra qualquer tentativa de romper o bloqueio de Gaza e entregar ajuda humanitária.

Após a enorme mobilização e as greves de massa na segunda-feira na Itália, este se tornou um ponto político central no país. Tal é o clima da opinião pública que o Ministro das Relações Exteriores italiano, que estava na Estônia no momento do ataque, foi forçado a emitir uma declaração pública condenando-o e a enviar uma fragata da Marinha em direção à Flotilha, fato relatado aos israelenses. Esta é uma grande escalada e um passo sem precedentes. Não é uma atitude que o governo de direita da Itália tenha tomado voluntariamente, mas sim algo que foi forçado a fazer pela enorme pressão do movimento de massas.

Sejamos claros. A missão da fragata não é defender a flotilha de um ataque israelense, mas "prestar assistência aos cidadãos italianos que fazem parte dela, caso seja necessário". Ainda assim, é um gesto muito forte. Enquanto isso, a primeira-ministra italiana Meloni critica a flotilha, chama-a de irresponsável e exige que entreguem a ajuda... às Forças de Defesa de Israel!

A decisão italiana foi seguida, algumas horas depois, por uma declaração do presidente espanhol, Pedro Sánchez, que também está sob forte pressão da opinião pública para adotar medida semelhante. Ele ordenou que um navio da Marinha espanhola zarpasse em direção à flotilha amanhã.

Mais uma vez, outro gesto forte. Novamente, com ressalvas claras: "A missão não seria a de confrontar uma possível agressão israelense contra a Flotilha, mas sim a de prestar-lhe assistência em caso de necessidade. O navio operaria apenas em águas internacionais."

O genocídio brutal perpetrado por Israel em Gaza (e na Cisjordânia) levou a uma mudança brusca de consciência e a uma radicalização em massa em vários países ocidentais. Seus líderes se sentem cada vez mais pressionados. Itália e Espanha são particularmente afetadas, já que a flotilha é composta em grande parte por cidadãos desses dois países.

A questão de Gaza — os dois pesos e duas medidas insensíveis dos governos imperialistas ocidentais que denunciam a Rússia na Ucrânia e exigem mais armas e mais gastos militares para esse conflito, ao mesmo tempo em que apoiam o sangrento ataque israelense a Gaza — tem agido como um para-raios atraindo a radicalização política contra o sistema pela esquerda.

Este é um problema insolúvel para os governos da Itália e da Espanha, e muitos outros. Quanto mais gestos fazem em direção ao movimento (como, finalmente, depois de dois anos, chamar o que Israel está fazendo em Gaza de "genocídio"), mais as massas exigem ação – não palavras. Quanto mais concessões cosméticas são feitas ao movimento, mais as massas sentem que apenas a ação direta funcionará.

Eles não estão errados. A questão deve ser colocada claramente. Somente um boicote dos trabalhadores pode ajudar a isolar a máquina de guerra israelense de suas linhas de abastecimento. Estivadores, trabalhadores da indústria de defesa, trabalhadores do transporte em geral – eles têm o poder de interromper o fornecimento de suprimentos, munição e combustível para as Forças de Defesa de Israel (IDF). A solidariedade com a Palestina deve estar ligada à necessidade de derrubar os belicistas em casa. O movimento de massas deve confiar apenas em suas próprias forças.

Tempos turbulentos

Uma coisa é clara. Vivemos em um período extremamente turbulento. Ao contrário daqueles que lamentam uma guinada à direita na sociedade e o perigo de o fascismo chegar ao poder (ou de já estar no poder!), o que vemos é um processo de enorme polarização política. É impulsionado pela crise do capitalismo, que por sua vez levou ao colapso da legitimidade das instituições estabelecidas da democracia burguesa.

Isso se expressou, em parte, na ascensão de demagogos reacionários de direita, que se aproveitaram desse clima de raiva. Mas também está provocando, cada vez com maior frequência, que as massas saiam às ruas para intervir diretamente nos acontecimentos, tentando tomar as rédeas da situação.

Claro, já passamos por isso antes. Desde a crise capitalista de 2008, houve várias ondas de movimentos de massas e insurreições. Em 2011, assistimos à eclosão da Primavera Árabe, com a derrubada revolucionária dos odiados regimes reacionários pró-imperialistas de Mubarak, no Egito, e Ben Ali, na Tunísia, bem como à ocupação das praças pelos Indignados (na Espanha), pelo movimento da Praça Syntagma (na Grécia) e pelo movimento Occupy (nos EUA).

Em 2015, testemunhamos as enormes batalhas contra a austeridade capitalista na Grécia, bem como a ascensão do Podemos, de Mélenchon, de Sanders e de Corbyn. Depois, em 2019-20, tivemos revoltas no Equador e no Chile, a revolução sudanesa, a greve nacional na Colômbia e o levante do Black Lives Matter nos Estados Unidos.

Repetidamente, a massa de trabalhadores e jovens deu tudo de si, na maioria dos casos sem qualquer liderança e, em alguns casos, contra a direção estabelecida, para tomar as rédeas da situação e transformar fundamentalmente suas condições. Não se pode exigir mais deles.

A razão pela qual todos esses movimentos acabaram em um beco sem saída é a falta de uma direção revolucionária sólida e com suficiente enraizamento popular para levá-los à vitória, a qual só pode ser alcançada com a abolição do sistema capitalista e a chegada dos trabalhadores ao poder.

Um novo período de erupção da luta de classes irrompeu. Que época para se estar vivo! Que semanas foram estas! (E setembro ainda não acabou).

Join us

If you want more information about joining the RCI, fill in this form. We will get back to you as soon as possible.