Ataque dos EUA à Venezuela – a “Doutrina Donroe” em ação Share TweetA criminosa incursão militar dos EUA na Venezuela e o sequestro de um chefe de Estado estrangeiro em exercício é a primeira manifestação prática da nova Estratégia de Segurança Nacional de Trump. Washington está determinado a estabelecer seu domínio sobre o Hemisfério Ocidental, que considera seu quintal, e a expulsar da região quaisquer "atores não hemisféricos", principalmente a China.A operação militar na Venezuela foi seguida por uma coletiva de imprensa delirante na qual Trump e Marco Rubio se vangloriaram da extensão do poder dos EUA e fizeram ameaças contra a Colômbia, o México e Cuba. Nas últimas horas, Trump reiterou suas declarações anteriores sobre a Groenlândia, que, segundo ele, os EUA precisam "por razões de segurança nacional", prometendo resolver a questão "em dois meses". Essas não são ameaças vazias.Narcotráfico – um pretexto falsoSejamos claros. Este ato de descarada agressão militar imperialista contra um país soberano não teve absolutamente nada a ver com narcotráfico, que foi a justificativa original de Trump. Todos, sobretudo os serviços de inteligência dos EUA, sabem que o fentanil não vem da Venezuela, que o país não é produtor de cocaína e que desempenha um papel muito pequeno neste tráfico. O chamado Cartel de los Soles não existe, e se alguma vez existiu, foi em conexão com alguma operação de flagrante provocado da CIA realizada em conjunto com oficiais do exército venezuelano na década de 1990, muito antes de Chávez chegar ao poder.Os ataques aéreos contra pequenas embarcações no Caribe e no Pacífico nos últimos cinco meses não tiveram nada a ver com a epidemia de drogas que assola os EUA, e sim com a intimidação imperialista destinada a submeter a Venezuela aos ditames de Washington.Após a invasão dos EUA e o sequestro de Maduro, liberais nos EUA e em outros lugares reclamaram amargamente que se tratava de uma ação ilegal – uma violação da chamada ordem baseada em regras – e exigiram que a ONU e a OEA interviessem.Até mesmo o The New York Times publicou um editorial se opondo às ações de Trump, alegando que eram “ilegais”. O The New York Times demonstra um cinismo particularmente evidente nesse ponto, visto que foi revelado que seus jornalistas souberam do ataque com antecedência, mas permaneceram em silêncio para não interferir, tal é a extensão de sua “oposição” às ações criminosas e ilegais de Trump.Isso é pura hipocrisia. Na verdade, a "legalidade internacional" é apenas uma fachada para o domínio dos poderosos. Os presidentes dos EUA nunca se preocuparam com formalidades legais e muitos deles (tanto Republicanos quanto Democratas) infringiram a lei (americana e internacional) para realizar agressões militares no exterior. Quando conseguem cobertura da ONU para levar adiante seus planos imperialistas, é claro que isso lhes convém. Quando não conseguem, seguem em frente sem se importar com as consequências.Nós nos opomos ao brutal ataque dos EUA à Venezuela e ao sequestro de Maduro, não de um ponto de vista legalista (teria sido aceitável se tivesse a aprovação do Congresso americano?). Nos opomos, sim, porque este é fundamentalmente um ato de agressão imperialista, que serve aos interesses da classe dominante nos Estados Unidos e vai contra os interesses dos trabalhadores em todo o mundo.O sequestro de Maduro também não representa uma mudança em relação ao comportamento passado do imperialismo estadunidense. O assassinato de chefes de Estado estrangeiros (Lumumba, Allende, Gaddafi, para citar apenas alguns) e a deposição de governos por meio de golpes militares (Cuba, Guatemala, Brasil, República Dominicana, Irã, Chile, Argentina, Paraguai, Bolívia, Venezuela, Granada e muitos outros) são ferramentas comuns do imperialismo norte-americano e da CIA. O presidente do Panamá, Noriega, e o presidente do Haiti, Aristide, foram sequestrados e retirados de seus países por intervenções militares estadunidenses em 1989 e 2004, respectivamente.A diferença reside no fato de que o atual ocupante da Casa Branca não parece se preocupar em oferecer desculpas eloquentes para a agressão imperialista norte-americana. Não se fala em direitos humanos, direitos das mulheres, violação do direito internacional ou de fronteiras internacionais para encobrir os verdadeiros objetivos do imperialismo ianque. Trump não hesita em dizer o que todos pensam. Em sua delirante coletiva de imprensa na tarde de sábado, 3 de janeiro, ele deixou claro que os EUA iriam administrar a Venezuela diretamente e que o petróleo venezuelano seria entregue a multinacionais petrolíferas americanas.Restaurar a democracia?Quanto à democracia, a Estratégia de Segurança Nacional estabelece que os EUA não imporão regimes democráticos a outros países, mas que se preocuparão apenas se forem liderados por governos amigos (leia-se: lacaios subservientes). O sequestro de Maduro não tem nada a ver com o fato de ele ter fraudado ou não as eleições de 2024. Não há dúvidas de que Petro, na Colômbia, e Sheinbaum, no México, venceram eleições livres e justas, e mesmo assim Trump os ameaça abertamente, acusando-os sem fundamento de serem traficantes de drogas ou de estarem a serviço de cartéis de drogas.O presidente Chávez venceu nada menos que 19 eleições e referendos democráticos entre 1998 e 2013. Isso não impediu o imperialismo norte-americano de tentar derrubá-lo diversas vezes, a começar pelo golpe de curta duração de abril de 2002.Trump (como seus antecessores) não tem problemas de confraternizar com o príncipe bin Salman da Arábia Saudita, que nunca se submeteu a uma eleição, livre ou não. Netanyahu, um criminoso de guerra que cometeu as piores violações dos direitos humanos e está conduzindo uma campanha genocida contra os palestinos, foi recebido com banquetes e bebidas em Mar-a-Lago durante as comemorações de Ano Novo, enquanto Trump dava a ordem para atacar a Venezuela.Os EUA alegam que foi Edmundo González, o candidato reacionário da oposição venezuelana que substituiu María Corina Machado, quem venceu a eleição presidencial de 2024 e que, portanto, ele é o presidente legítimo do país. No entanto, na coletiva de imprensa de 3 de janeiro, Trump descartou a ganhadora do Prêmio Nobel, dizendo que Machado era “uma senhora simpática”, mas não tinha apoio suficiente para assumir o poder na Venezuela. Trump afirmou então que Rubio teve uma longa conversa telefônica com Delcy Rodríguez (então vice-presidente da Venezuela) e que ela concordou em fazer tudo o que os EUA queriam.Nisso, parece que o imperialismo norte-americano está tentando extrair algumas lições de intervenções militares anteriores no exterior. No Iraque e na Líbia, o imperialismo destruiu e decapitou o aparato estatal e, em seguida, enfrentou o colapso completo da autoridade burguesa, a insurgência no caso do Iraque e a fragmentação do país em facções rivais no caso da Líbia. Nada disso cria um “ambiente favorável aos negócios” para a operação de multinacionais estadunidenses, nem a estabilidade necessária que o imperialismo estadunidense exige.Ao descartar Machado e optar por negociar com Rodríguez, Trump parece ter escolhido a opção de trabalhar por meio de um ator político que, em sua opinião, garanta o controle das forças armadas e dos aparatos de segurança e do Estado, a fim de evitar uma escalada para a guerra civil e a insurgência.A resposta da VenezuelaDelcy Rodríguez assumiu a presidência interina da Venezuela e foi avisada, sem rodeios, de que ou se submete aos planos dos EUA, ou terá um destino semelhante ao de Maduro. Washington age como uma máfia, que oferece proteção e ao mesmo tempo que extorque sua área de influência. Pague pela proteção, com petróleo e recursos, ou sofrerá as consequências. Essa é a mensagem clara do governo Trump, direcionada não apenas à Venezuela, mas a todo o continente.Durante meses, a mídia capitalista estadunidense publicou artigos apresentando Rodríguez como uma figura moderada e sensata, amigável aos setores empresariais nacionais e internacionais, alguém com quem os EUA poderiam dialogar. O Miami Herald publicou uma reportagem em outubro alegando que Delcy Rodríguez viajou ao Catar e ofereceu um acordo aos Estados Unidos, no qual Maduro renunciaria e ela lideraria uma transição negociada.Hoje, muitos na Venezuela se perguntam como foi possível que a operação dos EUA, que durou várias horas, fosse realizada com resistência mínima por parte do exército venezuelano. As defesas aéreas foram neutralizadas ou desativadas, os sistemas MANPAD russos Igla (mísseis terra-ar), dos quais o governo tanto se gabava, aparentemente não foram utilizados. Dezenas de soldados da segurança de Maduro foram mortos pelas forças americanas, incluindo 32 cubanos, mas, fora isso, a resistência parece ter sido mínima. Nenhum soldado americano foi morto e helicópteros americanos puderam sobrevoar Caracas praticamente sem serem incomodados por um longo período. Até o momento da redação deste texto, ninguém da direção venezuelana, seja civil ou militar, explicou o que aconteceu nem como aconteceu.Isso gerou intensa especulação nos círculos pró-Maduro na Venezuela sobre se ele teria sido traído. Rubio afirmou em coletiva de imprensa que a CIA tinha um informante dentro do círculo íntimo de Maduro, fornecendo informações detalhadas sobre seu paradeiro e seus movimentos. Outros vão além e alegam que Delcy Rodríguez pode ter feito um acordo com os Estados Unidos.Não há provas concretas para essa teoria, mas o fato de a questão ter surgido é resultado das circunstâncias em que a operação contra Maduro foi realizada: a resistência aparentemente mínima, o silêncio das autoridades venezuelanas por várias horas, bem como o fato de todas as mensagens vindas da direção pedirem calma e não mobilização ou resistência.Após a primeira reunião do Conselho de Ministros, em 4 de janeiro, Delcy Rodríguez divulgou uma “mensagem da Venezuela para o mundo e para os Estados Unidos”, na qual afirma:“Convidamos o governo dos EUA a colaborar conosco em uma agenda de cooperação voltada para o desenvolvimento compartilhado, dentro da estrutura do direito internacional, a fim de fortalecer a convivência comunitária duradoura.”Esta é uma mensagem de conciliação diante da brutal agressão, não a de resistência que ela parecia ter adotado no dia anterior. A mensagem sequer exige ou pede a libertação do presidente Maduro, que está sob custódia dos EUA em Nova York. Segundo relatos da mídia americana, a Venezuela também pediu aos EUA que reabram sua embaixada em Caracas.A Venezuela tem apenas duas opções. Ou resiste ao ataque do imperialismo estadunidense por meio da mobilização das massas de trabalhadores, camponeses e pobres, e faz um apelo às massas da América Latina e do mundo, ou se submete completamente aos ditames de Washington e entrega seus recursos naturais em larga escala à exploração estadunidense.O Termidor de MaduroO primeiro passo seria a formação de uma direção revolucionária genuína. O problema é que, desde que Maduro assumiu o poder há 12 anos, o que temos visto na Venezuela é um processo gradual e prolongado de contrarrevolução termidoriana. Enquanto Chávez incentivava a participação direta das massas na política, Maduro a sufocava burocraticamente.O controle operário foi esmagado, as empresas nacionalizadas foram privatizadas, os camponeses foram expulsos das terras expropriadas durante o governo Chávez. Ao mesmo tempo, a negociação coletiva e os direitos dos trabalhadores foram destruídos, sindicalistas militantes foram presos, partidos de esquerda (incluindo o Partido Comunista) tiveram seus registros eleitorais cassados… muito pouco restou da Revolução Bolivariana.O fato de essa contrarrevolução termidoriana ter sido conduzida cinicamente pela burocracia de Maduro, sob a bandeira do “socialismo”, do “bolivarianismo” e do “chavismo”, causou o descrédito generalizado dessas ideias e um profundo processo de desmoralização política entre as massas de trabalhadores e pobres.Em abril de 2002, dezenas de milhares de pessoas se manifestaram contra o golpe patrocinado pelos EUA contra o presidente Chávez. Desta vez, cerca de 100 pessoas se reuniram em frente ao Palácio de Miraflores.O imperialismo norte-americano se sente forte, tendo logrado o que era potencialmente uma operação complexa, e agora está embriagado pela vitória. Mas, se o sequestro de Maduro foi realizado sem perda de vidas para os militares norte-americanos (cerca de 80 pessoas foram mortas do lado venezuelano, entre civis e militares), a ideia de que a Venezuela será governada diretamente pelos Estados Unidos e que os EUA serão capazes de expulsar a China da América Latina provavelmente se mostrará mais complexa e difícil.Qualquer governo em Caracas que tente atender às exigências de Trump de uma entrega total dos recursos naturais acabará enfrentando a oposição do povo venezuelano. Há tradições profundas de um sentimento anti-imperialista muito saudável e orgulhoso entre as massas na Venezuela e em toda a América Latina. A ideia de empresas petrolíferas americanas desmantelarem a PDVSA (empresa estatal de petróleo venezuelana) e desviarem os lucros para fora do país será repugnante para milhões de pessoas, incluindo muitas que não apoiavam Maduro.Uma “Doutrina Donroe”?Quanto à luta contra a presença da China na América Latina, Trump enfrentará o fato de que a potência asiática é agora o principal parceiro comercial de toda a América do Sul e estabeleceu laços econômicos estreitos com Brasil, Chile, Argentina, Equador, Peru, Colômbia, etc. Trump agiu decisivamente para retirar os interesses chineses do Canal do Panamá, mas enfrentará uma árdua batalha para fazer o mesmo na América do Sul, onde a China inaugurou o importante porto de Chancay, no Peru, e está envolvida em um projeto de rota de transporte bioceânica ligando-o ao Brasil.Mesmo países que agora estão politicamente alinhados com Trump – como Argentina, Bolívia, Peru, Equador e Chile – não podem se dar ao luxo de cortar laços econômicos com a China. Os Estados Unidos conseguirão comprar as grandes quantidades de cobre, soja e carne que esses países vendem para a China?Na coletiva de imprensa, Trump falou sobre o retorno da Doutrina Monroe, um projeto que alguns descreveram como a Doutrina "Donroe". A Estratégia de Segurança Nacional menciona um "Corolário Trump" à doutrina de 1823. "América para os americanos" era, naquela época, uma tentativa de manter outras potências imperialistas (europeias) fora do continente, embora o imperialismo estadunidense ainda não tivesse os meios para impô-la. O que estamos vendo, mais precisamente, é uma tentativa de retornar ao Corolário Roosevelt, introduzido após o bloqueio naval da Venezuela em 1902-03, quando os EUA arrogaram para si o direito de intervir militarmente em países da América Latina.Esta é uma receita pronta e acabada para confrontos e conflitos, não apenas com os interesses chineses, mas eventualmente com as massas da América Latina, que dificilmente aceitarão a intimidação imperialista direta dos EUA sem reagir. Se alguém pensava que um “mundo multipolar”, com a ascensão da China e da Rússia, significaria que a exploração dos povos do continente seria atenuada, suas ilusões agora serão dissipadas. O único caminho para a verdadeira libertação do imperialismo é o da luta pela abolição do capitalismo em todo o mundo, e não o dos cálculos geopolíticos.Internacionalmente, as ações de Trump na Venezuela serão vistas como um sinal verde para que outras potências (China e Rússia) façam o mesmo em suas próprias esferas de influência. Na prática, ele está admitindo que os EUA não podem derrotar a Rússia na Ucrânia, mas que pelo menos deveriam ser capazes de impor sua dominação em seu próprio continente. Xi Jinping também estará atento. Um dia antes do ataque à Venezuela, uma delegação chinesa estava em Caracas, assinando acordos de cooperação econômica. E em resposta à entrega de armas americanas a Taiwan, a China intensificou os exercícios militares ao redor da ilha.Como comunistas, rejeitamos este último ato de agressão imperialista dos EUA. Defendemos incondicionalmente a Venezuela. A única maneira eficaz de combater o imperialismo é através da luta das massas trabalhadoras, em toda a América Latina, no mundo todo e também nos próprios Estados Unidos. O capitalismo, em sua fase imperialista, é um sistema em crise, um sistema de guerras, violência e opressão. Somente abolindo o sistema capitalista poderemos garantir um mundo de paz e prosperidade para todos.