A guerra de Israel contra a verdade Share TweetOs Repórteres Sem Fronteiras alertou que, "no ritmo em que jornalistas estão sendo mortos em Gaza pelo exército israelense, em breve não haverá mais ninguém para mantê-los informados". Gaza se tornou o lugar mais mortal para jornalistas no mundo. Mais de 270 jornalistas e profissionais palestinos da mídia foram mortos por Israel desde 7 de outubro de 2023.Não há precedentes em comparação com conflitos anteriores. Pesquisas da Universidade Brown mostram que "a guerra em Gaza, desde 7 de outubro de 2023, matou mais jornalistas do que a Guerra Civil Americana, a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, a Guerra da Coreia, a Guerra do Vietnã (incluindo os conflitos no Camboja e no Laos), as guerras na Iugoslávia nas décadas de 1990 e 2000 e a guerra pós-11 de setembro no Afeganistão, juntas". Durante a guerra do Iraque, que durou de 2003 a 2011, 228 jornalistas foram mortos; o genocídio em Gaza ultrapassou esse número em menos de dois anos.O massacre de jornalistas por Israel não é apenas um subproduto lamentável da guerra ou um erro descuidado. É uma política deliberada e uma extensão do genocídio israelense. Israel está silenciando aqueles que ousam revelar suas atrocidades. Faz isso com a ajuda de seus aliados imperialistas e da mídia tradicional, que fornece apoio militar e diplomático enquanto corrobora as mentiras e a desinformação do regime.DesinformaçãoO recente ataque israelense ao Hospital Nasser demonstra esse uso cínico da desinformação: depois que Netanyahu disse que o ataque foi um "acidente trágico", as Forças de Defesa de Israel (IDF) declararam que tinham como alvo uma "câmera do Hamas" e que alguns dos mortos eram terroristas. De fato, a câmera pertencia a um jornalista da Reuters; cinco jornalistas que trabalhavam para veículos como a Reuters e a Associated Press estavam entre os mortos, além de quatro médicos.Difamar jornalistas como terroristas após assassiná-los é uma tática comum do exército israelense. Em julho de 2024, o correspondente da Al Jazeera, Ismail Al Ghoul, foi morto pelas Forças de Defesa de Israel (IDF), que então apresentaram um documento alegando que ele havia recebido uma patente militar do Hamas em 2007, quando tinha apenas 10 anos de idade.As Forças de Defesa de Israel (IDF) mataram recentemente dois cinegrafistas da emissora de notícias Al-Aqsa TV, administrada pelo Hamas, e se recusaram a dar qualquer justificativa para que os dois fossem considerados alvos militares. Segundo as Forças de Defesa de Israel (IDF), até mesmo trabalhar como cinegrafista é suficiente para justificar rotular alguém como terrorista e assassiná-lo. Alguns, como o Sindicato Nacional de Jornalistas da Grã-Bretanha, apontaram que a Convenção de Genebra estabelece: "Jornalistas em zonas de guerra devem ser tratados como civis e protegidos como tal, desde que não participem das hostilidades". Mas tais sutilezas não significam nada quando ameaçam as políticas assassinas das principais potências imperialistas e seus aliados. Nesse caso, o direito internacional é descartado sem qualquer hesitação.Israel difama jornalistas sistematicamente, com a intenção de limpar sua própria imagem, enquanto o resto do mundo assiste ao seu genocídio com horror. Recentemente, diversas fontes de inteligência divulgaram que as Forças de Defesa de Israel (IDF) possuem uma unidade especial chamada "Célula de Legitimação". Seu objetivo é encontrar informações, ainda que tênues, que liguem jornalistas mortos por Israel ao Hamas, a fim de combater a má fama que Israel recebe por assassinar inocentes.Essas mesmas fontes de inteligência revelaram que a célula não só havia sido usada para retratar falsamente jornalistas como combatentes do Hamas, mas que o escalão político de Israel frequentemente ditava quais áreas de inteligência deveriam ser focadas, e que as informações coletadas eram regularmente passadas aos Estados Unidos por canais diretos para evitar críticas e continuar o fluxo de armas.Além de perseguir jornalistas, Israel os impediu completamente de entrar em Gaza. Todos os jornalistas estrangeiros estão proibidos de entrar em Gaza desde 2023. Para reprimir veículos palestinos, o governo israelense criou uma lei que permite o fechamento de veículos de comunicação considerados uma ameaça ao Estado, conhecida como "Lei Al Jazeera", que foi usada para fechar a Al Jazeera na Cisjordânia. Essas medidas não visam a segurança dos jornalistas, que frequentemente fazem reportagens em zonas de guerra, nem do público. Visam a segurança de Netanyahu, que quer continuar o conflito para se manter no poder e evitar acusações de corrupção. Para isso, ele precisa manter o apoio público, que está diminuindo.O governo também está reprimindo a própria mídia israelense. Impôs "sanções econômicas" ao Haaretz, o jornal mais antigo de Israel, proibindo órgãos governamentais de se comunicarem, anunciarem ou financiarem o veículo. Isso ocorre após declarações feitas pelo editor do Haaretz referindo-se aos "combatentes pela liberdade" palestinos e ao "regime de apartheid" de Israel. Essa repressão interna é um reflexo das fissuras na própria sociedade israelense: grandes setores da população, incluindo as forças armadas, estão cada vez mais cautelosos com esse conflito sem-fim. O genocídio em curso e a guerra em seis frentes, continuados por Netanyahu em prol de seus próprios interesses pessoais às custas da estabilidade de Israel, dividiram Israel de cima a baixo.Assim como a matança de palestinos inocentes em geral, esta guerra contra jornalistas não surgiu do nada. Israel já atacou jornalistas em Gaza antes. Em maio de 2023, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas relatou que pelo menos 20 jornalistas foram mortos por fogo militar israelense desde 2001.Mídia ocidentalVocê pode pensar que as empresas de mídia ocidentais teriam algum senso de lealdade para com os jornalistas mortos por Israel. Mas elas nem sequer defendem seus próprios jornalistas! Quando a Reuters noticiou o assassinato de Anas Al-Sharif, jornalista cuja fotografia em Gaza lhe rendeu um Prêmio Pulitzer, por Israel, usaram o título "Israel mata jornalista da Al Jazeera que dizia ser líder do Hamas", publicando acriticamente a falsa alegação de Israel. Isso levou os próprios jornalistas da Reuters a acusarem a agência de parcialidade.Este não é um incidente isolado. Recentemente, mais de 100 funcionários anônimos assinaram uma carta criticando a BBC por não declarar quando as alegações feitas por Israel eram infundadas, por não fornecer contexto histórico anterior a 7 de outubro e por não desafiar representantes do governo ou militares israelenses em entrevistas. Esses seriam princípios básicos para fazer reportagens sobre qualquer Estado em guerra, mas não este.A jornalista Ana Monjardino deixou a CNN Internacional por esse motivo. Ela explicou como, mesmo antes de 7 de outubro de 2023, os convidados palestinos tiveram que ser examinados pelo "Escritório de Jerusalém" da organização. Ela também denunciou a reportagem equivocada da redação sobre a história refutada de decapitação de bebês pelo Hamas e a "lista do Hamas" inventada, que se provou ser apenas um calendário usado para justificar o bombardeio israelense ao hospital infantil de Rantisi. Ana Monjardino não está sozinha nas críticas internas à CNN e a outras empresas de notícias, nem na conclusão de que a sua cobertura da guerra entra em com a integridade jornalística.Após a prisão em massa de apoiadores da Palestina Action, na Grã-Bretanha, o evento foi retratado nas notícias como uma multidão violenta em confronto com a polícia, com manchetes mencionando " confrontos violentos " e " abusos intoleráveis ". Na verdade, os manifestantes estavam sentados pacificamente com cartazes e foram sequestrados pela polícia ao longo de várias horas. Essa distorção da verdade tem sido cada vez mais empregada a serviço da classe dominante, à medida que ela perde o controle e o mundo é arrastado para a crise e guerra.Entretanto, esta é uma ferramenta com retornos decrescentes. Quanto mais mentiras descaradas são propagadas na mídia, contradizendo claramente a realidade dos eventos, mais claro fica que a dita imprensa livre é, na verdade, o porta-voz dos bilionários que as possuem ou controlam. A confiança na grande mídia já está sendo rapidamente corroída em todo o mundo. Cada vez menos pessoas confiam no que lhes é dito.Apoio imperialistaApesar dos melhores esforços de Israel, a cobertura de seus crimes genocidas não pode ser escondida. Todos os dias, surgem novas imagens dos horrores cometidos pelo regime israelense, o que alimenta a raiva e a resistência em massa em todo o mundo.No entanto, os líderes ocidentais fizeram o que podiam para ajudar Israel. Trump, Starmer, Macron, Merz e outros, esses criminosos de guerra continuaram a enviar dinheiro e armas para Israel. Agora, começaram a fazer gestos vazios, como ameaçar reconhecer a Palestina e enviar algumas migalhas de ajuda humanitária a Gaza, devido o quão impopular se tornaram em casa, ao alimentar este genocídio.Esses líderes fazem discursos nauseantes sobre a importância da paz, do direito internacional e da liberdade de expressão, mas ainda assim enviam dinheiro e armas para Netanyahu. Tentam limpar a reputação de Israel da melhor maneira possível, convidando Netanyahu para a Casa Branca e o presidente Herzog para o Gabinete do Primeiro Ministro (Downing Street, nº 10).Para esses líderes, a política interna não é distinta da política externa. Enquanto Israel chama os jornalistas de terroristas, grupos de protesto não-violentos, como a Palestina Action na Grã-Bretanha, foram rotulados como organizações terroristas por jogar tinta em aviões.Centenas de pessoas que protestavam em apoio ao grupo foram presas. O Estado britânico prendeu e perseguiu jornalistas pró-Palestina , confiscando laptops e celulares por "incentivarem o terrorismo". A liberdade de expressão também está sob ataque na Alemanha e nos EUA .O que os imperialistas temem não é o terrorismo, mas a verdade. Eles são os terroristas. Eles tornaram o genocídio de Israel possível. Agora, estão colhendo as consequências.